Na seção onde trabalhava Mário dividia seus dias com outros cinco colegas. Todos com idades muito parecidas.

Conversavam na maior parte do tempo sobre assuntos triviais. Da última rodada do campeonato de futebol, novelas, filmes em cartaz e manchetes policiais.

Os dias transcorriam numa rotina absolutamente monótona. Entre uma atividade e outra, os assuntos eram previsivelmente repetidos. Experimentavam um déjà vú.

Observando o comportamento dos colegas, Mário se deu conta que havia algo em comum naquele grupo além da idade. Não demonstravam nas conversas do dia a dia maiores objetivos em suas vidas.

Não vibravam pelas conquistas no trabalho ou na vida pessoal. Faltava às pessoas do grupo aquele brilho que denuncia a paixão pelo que se faz e que move cada um em direção à superação profissional e à realização pessoal. Faltava a presença de sonhos em suas vidas.

Mário trazia muito viva em sua memória a ocasião em que revelou a esses mesmos colegas sua intenção de matricular-se para a graduação no nível superior, ocasião em que recebeu uma série de comentários desanimadores. Coisas como: “vai gastar à toa”, “perder um tempo precioso” ou “aonde quer chegar com isto?”.

A reprovação de uns e o silêncio ou indiferença de outros fizeram com que se desmotivasse, adiando por muito tempo aquele plano.

Lembrou também de outra vez em que apresentou ao seu supervisor um trabalho para melhoria de determinado processo da empresa, e de sua inusitada reação. Após uma passada de olhos sugeriu algumas alterações e pediu que aguardasse ser chamado para fazer a apresentação à diretoria. Algo que nunca ocorreu.

Ao desconsiderar todo o esforço que Mário teve na elaboração do estudo de melhoria, dera uma clássica demonstração de como um chefe pode desmotivar seu colaborador.

Todas estas pessoas com quem convivia diariamente exerciam, sem que tivesse consciência, grande influência sobre seu destino.

Serviam como uma espécie de combustível para seu motor interior. Uma fonte para sua motivação. Ou desmotivação.

-Será que as pessoas com quem convivemos têm poder sobre nossas escolhas e o nosso destino? Perguntou à esposa Luíza durante o jantar.

-Talvez. Ouvi outro dia um pastor dizer que muitas vezes agimos como ovelhas de um rebanho que são deixadas levar pacificamente ao matadouro, sem resistir. Que seguimos pelo caminho olhando apenas para o chão e não para o horizonte, indo parar justamente onde pretende nos levar os manipuladores e maus conselheiros.

-Você sabe que ele tem toda razão? Começo a crer que preciso agir como uma ovelha rebelde. Ousar pular o cercado onde estou confinado para buscar um novo destino e fugir do matadouro que a rotina nos conduz.

Luíza o olhava com admiração enquanto falava. Ainda suspirava pelo marido. Ele que tinha sido seu primeiro e único amor e com quem aprendeu segredos da alma e do corpo.

-Sinto que fui uma dessas ovelhas mansas até hoje, conduzindo minha carreira de cabeça baixa e pela vontade dos outros. Coçou o queixo.

Sentado ao lado do pai, o filho Pedrinho acompanhava atentamente toda a conversa enquanto tomava seu prato de sopa.

-Pedrinho vai fazer uma boa universidade algum um dia.  Quem sabe até estudar para ser médico. Não é Pedrinho? Provocava carinhosamente a mãe.

Depois do jantar os três foram sentar num balanço que ficava nos fundos da casa. A noite estrelada e sem luar era um convite à contemplação do céu.

-Olha, filho! Aquelas lá são as Três Marias. O pai apontava para os três pontinhos juntos lado a lado. – E aquele outro é o Cruzeiro do Sul. Está vendo?

Ficaram ali balançando, em silêncio. Os três. Olhando para o infinito e ouvindo somente o ruído da brisa nas folhas. Sonhavam com uma vida melhor.

 

“Cuidado com suas companhias”. Não deixe de sonhar jamais!!!

 

Até a próxima!!

Equipe Tête-à-Tête.