NOVA BABEL

Ainda lembro bem da balbúrdia da minha turma de 5ª série onde a maioria dos alunos corria de um lado para outro falando ao mesmo tempo tão logo a professora se ausentava da sala de aula.

Todos gritavam, cada um tentando chamar a atenção para si. Certamente ninguém era ouvido. Mas naquela fase da vida escolar, de socialização, o que importava era viver uma aventura na ausência temporária da autoridade. Normal para a idade.

Pelos corredores e no pátio da escola a confusão se repetia até que um zelador intervinha e recolocava ordem na situação. Ainda eram figuras respeitadas e reverenciadas por todos. Professor e zelador representavam um limite para aquele que era um comportamento muito próprio das crianças em fase de novas descobertas.

Com o passar do tempo, ao ingressar no ambiente profissional, verifiquei admirado que o comportamento das pessoas adultas tinha algo muito parecido com o das crianças daquela 5ª série.

Todos falavam descontroladamente, agora com pretensa autoridade sobre todo o tipo de assunto. Política, ciência, filosofia, legislação, etc. Sobre tudo emitiam opiniões tentando chamar a atenção para suas teses, sem nunca ouvir qualquer posição contrária. Não permitiam o estabelecimento de qualquer debate mais sério sobre um assunto.

O que ficava muito claro era a necessidade das pessoas em serem ouvidas acima de qualquer outro interesse. Ou seja, não havia uma verdadeira reflexão sobre os temas abordados, apenas o desejo de assumir o centro das atenções por alguns instantes.

Nestes ambientes de trabalho, a presença do superior hierárquico, normalmente um supervisor, era ainda um limite a por ordem na agitação, reorganizando o caos gerado por tantas opiniões simultâneas, não solicitadas em sua maioria, e que provocavam outras tantas opiniões contrárias, sem nunca serem as mensagens efetivamente recebidas pela outra parte.

O tempo seguiu seu ritmo e a tecnologia produziu maravilhas. A Internet deu voz a todas as pessoas, indistintamente.

As redes sociais evoluíram e cooptaram adeptos de todas as idades e profissões. Todos agora num único ambiente onde já não existem nem professor, zelador ou superior hierárquico a monitorar os comportamentos.

Neste novo ambiente de opiniões sem limites, a Torre de Babel, tal como contado no Gênesis, foi reconstruída. A sensação de confusão geral se estabeleceu como se cada um de nós falasse línguas diferentes, incompreensíveis.

Cada pessoa ou grupo desempenha agora o papel de jornalista, editor e dono de jornal, produzindo sua própria notícia para divulgá-la sem pejos. Não medindo as consequências de suas matérias provocam, por vezes, verdadeiros estragos.

Logo, se a verdadeira atividade intelectual, que requer profundas reflexões no isolamento com a própria consciência já era isenta da responsabilidades pelas más idéias que eventualmente alimentaram tristes passagens ao longo da história, o que esperar agora que os novos “intelectuais” pululam aos borbotões diariamente?

Que notícias, matérias e opiniões considerar verdadeiras neste tumulto geral? O que é realmente útil para nossa vida e carreira?

O resultado deste fenômeno é um sentimento difuso que contribui para as incertezas que vem tomando conta de toda a sociedade.

Proteja-se! Seja muito prudente ao acessar os conteúdos desta nova Babel!

 

Boa sorte!

Equipe Tête-à-Tête

 

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