(…) Eu já sugeri que seria absurdo pensar nos laços familiares como sendo contratuais, ou em obrigações familiares como tendo surgido, de algum modo, de um livre abandono da autonomia ou de até mesmo de algum acordo implícito que ascende até a consciência num momento posterior, por assim dizer.

Aqui a linguagem do contrato, até mesmo como metáfora, falha em estabelecer contato com o fatos. E é por causa disso que individualistas radicais – aqueles que não conseguem reconhecer virtude alguma em qualquer arranjo que, em última instância, não derive da escolha consciente – começaram a atacar a família, a fabricar a ideia de sua “dispensabilidade”, a declarar guerra a ela por considerá-la uma forma de “opressão patriarcal”, da qual mulheres e crianças devem ser libertadas caso queiram desfrutar de uma liberdade e satisfação próprias.

Se fosse acidental o fato de os serem humanos crescerem para amar, necessitar e depender um dos outros; se fosse acidental o fato de as crianças se sentirem ligadas a seus pais e os pais as suas crianças por meio de vínculos inexoráveis que circunscrevem a necessidade do prazer e da dor posteriores; se fosse acidental o fato de a vida doméstica ser até hoje (exceto no caso de uma minoria) tão difícil como no passado, então talvez a “crítica radical” tivesse alguma força.

Os conservadores certamente se mostrarão céticos quanto a isso. Suas raras tentativas de expressar a verdade sobre o mundo provavelmente se baseiam na observação e carregam uma descrença na mutabilidade imediata da natureza humana. Portanto eles admitirão que estes fatos não são acidentais e que o vínculo familiar é indispensável apenas se o prazer, a diligência, o amor, a tristeza, a paixão e a obediência também o forem – isto é, apenas no caso da minoria que pode persuadir-se (por qualquer razão) a renunciar a essas coisas.

A família é, portanto, uma pequena unidade social que compartilha com a sociedade civil a condição única de ser não contratual, de surgir (tanto para crianças como para os pais) não da escolha, mas da necessidade natural. E (para inverter a analogia) é óbvio que o vínculo que liga o cidadão à sociedade não é, do mesmo modo, voluntário, mas um tipo de relação natural. (…).

Trecho extraído do livro “O que é Conservadorismo”, de Roger Scruton.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête