Discurso de Rui Barbosa de 1919, que incorporou o sentimento do “sem voz” comum, num desabafo contra a visão que os donos do poder de então tinham do brasileiro:

“(…) Eis o que eles enxergam, o que eles têm por averiguado, o que os seus atos dão por líquido, no povo brasileiro: uma ralé semi-animal e semi-humana de escravos de nascença, concebidos e gerados para a obediência, como o muar para a albarda, como o suíno para o chiqueiro, como o gorila para a corrente; uma raça cujo cérebro ainda se não sabe se é de banana, ou de mamão para se empapar de tudo que lhe embutam; uma raça cujo coração ainda não se estudou se é de cortiça, ou de borracha, para não guardar mossa de nada, que o contunda; uma raça, cujo sangue seja de sânie, ou de lodo, para não sair jamais da estagnação do charco, ou do esfacelo da gangrena; uma raça, cuja índole não participe, sequer, por alguns instintos nobres ou úteis, dos graus superiores da animalidade.

Não! Não se engane o estrangeiro. Não nos enganemos nós mesmos. Não!

O Brasil não é isso. Não! O Brasil não é o sócio de clube, de jogo e de pândega dos vivedores, que se apoderaram da sua fortuna, e o querem tratar como a libertinagem trata as companheiras momentâneas da sua luxúria.

Não! O Brasil não é esse ajuntamento coletício de criaturas taradas, sobre que possa correr, sem a menor impressão, o sopro das aspirações, que nesta hora agitam a humanidade toda.

Não! O Brasil não é essa nacionalidade fria, deliqüescente, cadaverizada, que receba na testa, sem estremecer, o carimbo de uma camarilha, como a messalina recebe no braço a tatuagem do amante, ou o calceta, no dorso, a flor-de-lis do verdugo;

Não! O Brasil não aceita a cova, que lhe estão cavando os cavadores do Tesouro, a cova onde o acabariam de roer até aos ossos os tatus-canastras da politicalha. Nada, nada disso é o Brasil.

O Brasil, senhores, sois vós.

O Brasil é esta assembléia.

O Brasil é este comício imenso de almas livres.

Não são os comensais do erário.

Não são as ratazanas do Tesouro.

Não são os mercadores do Parlamento.

Não são as sanguessugas da riqueza pública.

Não são os falsificadores de eleições.

Não são os compradores de jornais.

Não são os corruptores do sistema republicano.

Não são os oligarcas estaduais.

Não são os ministros de tarraxa.

Não são os presidentes de palha.

Não são os publicistas de aluguel.

Não são os estadistas de impostura.

Não são os diplomatas de marca estrangeira.

São as células ativas da vida nacional.

É a multidão que não adula, não teme, não corre, não recua, não deserta, não se vende (…)”


……………………………..

O motivo para o desabafo do grande polímata brasileiro ainda persiste. Os donos do poder insistem em continuar enxergando e tratando os brasileiros da mesma forma depois de 100 anos. Contra isto deveremos resistir civicamente.

Fazer a reforma política (eleitoral) é necessário para que o Sistema Presidencialista (Onde o chefe do Executivo só se sustenta caso ceda as vontades do Legislativo) possa ser revisto. Corrobora a tese o fato de os Ministros do Supremo Tribunal serem indicados politicamente (independente do notório saber), o que não contribui em nada para a necessária imagem de isenção daquela Corte. Bons e saudáveis exemplos de Parlamentarismo não nos faltam.

Benhur Debastiani Teixeira

Bacharel em Administração de Empresas


Até Mais!

Equipe Tête-à-Tête