A língua portuguesa chegou ao continente africano durante a colonização, nos séculos XV e XVI. Na África, o português foi um importante instrumento de dominação cultural e, paradoxalmente, de fortalecimento e união das identidades nacionais.

História do português na África: da colonização aos dias atuais

Embora seja considerada língua oficial, nos países africanos onde se fala o português (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe) há uma grande diversidade de idiomas, principalmente de línguas nativas.

Do final do século XIX até a segunda metade do século XX, em especial após a Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 25 de abril de 1974, desenvolveu-se gradativamente, nas colônias portuguesas, o processo de formação das identidades nacionais, em busca de autonomia. A descolonização se deu elegendo, em razão de interesses e motivos diversos, o português como língua que melhor unificaria todas as etnias, não apenas no sentido de consolidar politicamente os territórios nacionais, mas também de estabelecer incontestáveis fronteiras socioeconômicas e culturais.

O português, durante esse processo, permaneceu como a língua da administração política, dos órgãos de imprensa e de todas as relações com o mundo exterior, caracterizando-se como uma língua predominante entre as classes privilegiadas.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), serão 58 milhões de falantes no continente africano nos próximos vinte anos. O potencial econômico da região depende, em parte, da difusão e consolidação do português como língua majoritária, inclusive no dia-a-dia das comunidades, associando o desenvolvimento técnico-científico já existente em outras partes do mundo em que se fala português com as iniciativas ou empreendimentos regionais.

Mapa da África com os países que falam português.
Países africanos de língua portuguesa.

Traços fonéticos gerais do português africano

Alguns traços fonéticos específicos do português africano, de modo geral, são os mesmos de Portugal.

  • A vogal posterior /o/ pretônica tem pronúncia ligeiramente velarizada, próxima do /u/, e a vogal anterior /e/ também fica mais velarizada (com a parte posterior da língua recuando contra o véu do palato duro): porque soa purque.
  • As vogais átonas localizadas no início da palavra soam geralmente reduzidas ou quase não soam: pessoa soa p’ssoa.
  • Os ditongos nasais com vogal anterior /êi/, cuja representação gráfica geralmente é “em”, ficam com uma pronúncia aproximada de vogal mediai /ãi/: armazém soa armazãi.

Os países em que se fala o português na África

Em razão principalmente das distâncias e do contato com as línguas locais, o português da África tem se distanciado do português falado em Portugal. Há também diversas características regionais próprias.

Angola

Angola se localiza no litoral central da África ocidental. Com uma população de aproximadamente 16 milhões de habitantes, tem o português como língua oficial. Foi colônia de Portugal desde o início do século XVI, tendo passado pelo domínio holandês de 1641 a 1648, e por uma administração brasileira até meados do século XVIII. O país conquistou sua independência em 1975.

Dialetos de Angola:

  • Benguelense: província de Benguela
  • Luandense: capital Luanda
  • Sulista: sul de Angola

Traços do português de Angola:

  • Como em algumas regiões de Portugal, é frequente o uso de locuções verbais formadas por “estar a + infinitivo”: estar a cantar.
  • É usual, como no português de Portugal, bem como no de Moçambique, o emprego da segunda pessoa no código do tratamento: tu (te), num contexto informal e vós (vos), num contexto formal.

Moçambique

Moçambique está localizado no litoral orientai da África austral. Com uma população de aproximadamente 21 milhões de habitantes, tem o português como língua oficial. Foi colônia de Portugal do início do século XVI até a conquista da independência em 1975. Durante pouco mais de uma década foi uma república popular socialista, quando, em 1987, tendo pedido ajuda ao FMI (Fundo Monetário Internacional), começou um processo de democratização que culminou com eleições diretas em 1994.

Línguas de Moçambique:

  • Em Moçambique, apenas uma parte da população (cerca de 40%) fala o idioma oficial como primeira ou segunda língua. O restante dos moçambicanos fala uma das dezenas de línguas nacionais (de origem banto, grupo nigero-congolês oriental formado por cerca de 400 etnias diversas) reconhecidas e promovidas pelo estado como patrimônio cultural. Entre elas, as principais são: cicopi, cinyanja, cisenga, cishona, ciyao, gitonga, maconde, kimwani, macua, suaíli, suázi, xangana, xironga e zulu.

Traços do português de Moçambique:

  • O português moçambicano apresenta algumas expressões coloquiais semelhantes ao falado em Portugal: eh pá (com o sentido de aí, então)
  • Ocorre uma certa sonoridade mais próxima do português falado no Brasil e com enfraquecimento na fala coloquial das flexões nominais e verbais mais típicas, embora se empregue com mais frequência a segunda pessoa no código do tratamento: tu queres.

Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau está localizada na costa ocidental africana. Tem aproximadamente 1,5 milhão de habitantes, sendo que cerca de 30 mil moram no arquipélago dos Bijagós (88 ilhas), região que também pertence à Guiné-Bissau. O português é a língua oficial. Por mais de quatro séculos também foi colônia portuguesa. Conquistou a independência em 1973.

O português de Guiné-Bissau:

  • O português em Guiné-Bissau está, do ponto de vista da sonoridade, na linha intermediária entre o falado em Portugal e o falado no Brasil. Porém, tanto na estrutura sintática, quanto no repertório lexical empregado, ele tem mais semelhança com o usado em Portugal: gajo (moço); estar a determinar (o uso preferencial de locução com o infinitivo).

Cabo Verde

Cabo Verde é um arquipélago (dez ilhas) de origem vulcânica, localizado no Atlântico perto da costa noroeste africana. Tem cerca de 500 mil habitantes. Foi também colônia portuguesa, do século XV até 1975, quando conquistou sua independência. A língua oficial é o português.

O português de Cabo Verde:

  • O português cabo-verdiano apresenta léxico e sonoridade mais semelhantes aos empregados em Portugal. A colocação pronominal típica (ênclise) é a mesma que ocorre em Portugal: As raparigas começam a interessar-se.

São Tomé e Príncipe

São Tomé e Príncipe é um estado insular constituído por duas ilhas centrais e várias outras periféricas, num total de 964 km2, localizadas no golfo da Guiné. A ilha principal – São Tomé – é a capital. Considerada um dos últimos paraísos da terra, seus habitantes – os sãotomenses — moram com segurança e tranquilidade.

O português de São Tomé e Príncipe:

  • O português de São Tomé e Príncipe é mais próximo do português falado no Brasil. Uma das poucas semelhanças com a maneira de falar em Portugal está na velarização da vogal lei e quase nenhuma nasalização em alguns ditongos nasais e nas vogais que antecedem consoante nasal: limão soa limâupão soa pâu; banana soa no Brasil banãna, mas em São Tomé e Príncipe soa ba-na-na.

Créditos: Paulo Magno da Costa Torres


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Equipe Tête-à-Tête