Inovador, São Tomás de Aquino pensou as questões propostas por Aristóteles e Santo Agostinho de um ponto de vista próprio, que marcou profundamente a história da filosofia. Foi o expoente do movimento em defesa das universidades e de seu papel na sociedade medieval.

Discípulo de Alberto Magno, pensador da Universidade de Paris que defendia a chamada “ciência árabe-aristotélica”, Tomás de Aquino foi ensinado a associar os argumentos lógicos de Aristóteles ao pensamento cristão.

De acordo com os estudiosos, ele acabou por cristianizar o pensamento de Aristóteles, defendendo a ideia de que a razão não negava a fé, mas era um caminho distinto que confluía para Deus da mesma forma que a fé. Se o homem era provido de razão, era porque Deus queria que ele o reconhecesse também pelo caminho da racionalidade.

Tomás de Aquino escreveu, entre outras obras, a Suma teológica, um tratado de lógica medieval que garante aos homens ser possível a união entre fé e razão. Nesse trabalho, Aquino desenvolve as teses lógicas sobre a existência de Deus, entre outros aspectos, e, para tanto, utiliza-se do pensamento de Aristóteles, transformando-o no maior filósofo, na base da Escolástica.

Foi com este intuito – de mostrar a compatibilidade da razão com a religião – que Aquino apresentou as “provas lógicas” da existência de Deus, utilizando-se, para tanto, do pensamento aristotélico.

Teses lógicas da existência de Deus

Adaptando uma explicação da física aristotélica (o universo era movimento, sendo uma coisa “empurrada” por outra e por outra e que, deveria ter existido um primeiro motor que moveu tudo, o primeiro motor imóvel), São Tomás de Aquino afirmou que o primeiro motor imóvel moveu tudo e não foi movido por nada por uma única razão: por ter vontade própria. Assim como Deus criou tudo e não foi criado por nada, o primeiro motor imóvel pode ser chamado de Deus, ou seja, Deus existe, pois sem ele nada teria existido.

Imagem de São Tomás segurando uma réplica de uma igreja em uma mão e a bíblia em outra.
São Tomás de Aquino

Outro aspecto desenvolvido por Aristóteles correspondeu às relações entre as coisas num fluxo contínuo em que uma coisa era causa de outra e, esta, causa de outra, sucessivamente. Por raciocínio lógico, era possível dizer que uma causa causada levaria à necessidade de uma causa não causada, ou seja, uma causa primeira. Se esta causa primeira não foi causada por nada, é devido ao fato de ser uma causa eficiente em si mesma. Seguindo o mesmo raciocínio, Deus representava a causa eficiente, pois, para existir, não precisou que nada o causasse.

Além disso, havia a questão do Ser iniciada por Parmênides. Era possível, conforme Aristóteles, pensar em Ser Necessário e Ser Contingente. Como as coisas aparecem e desaparecem no tempo, isso significa dizer que não existiam e passaram a existir para, na sequência, desaparecer. Se tais coisas aparecem e desaparecem, é porque não são necessárias, visto que se fossem necessárias sempre teriam existido e nunca deixariam de existir. Porém, para que tais coisas apareçam e desapareçam, deve haver algo necessário, algo que está fora do tempo, que é eterno, que não veio a existir e nunca deixará de existir.

Assim, de acordo com a adaptação tomista, Deus é o Ser Necessário, e as outras coisas existentes no Universo são os Seres Contingentes. Deus é necessário para os seres contingentes, logo uma comprovação lógica de sua condição eterna e verdadeira.

Segundo Aristóteles, as coisas mudam por terem em si uma potência que transforma cada ato de si até que ato e potência se tornam iguais, expressão da verdade. Assim, tudo tem um sentido, e a mudança nada mais é do que a exigência de se cumprir o “destino” de cada coisa. Na adaptação tomista, a questão é a seguinte: se há uma ordem no Universo, se há uma regularidade definida pelos sentidos de cada coisa, não haveria um governo do Universo? Se existe uma regularidade cósmica, quem teria estabelecido o sentido de cada coisa senão Deus? Essa é mais uma prova de sua existência e de que a razão não nega a fé, mas é um percurso distinto da fé que nos leva a Deus. Um Deus desejoso de que o homem o reconhecesse nessa grandiosidade.

Isso não significava dizer que a razão humana pudesse abranger toda a verdade divina, toda a razão divina, afinal a razão humana não é perfeita como a de Deus. Aqui, mais uma vez Aristóteles foi utilizado. O filósofo havia realizado considerações acerca do Universo e afirmado a existência do mundo supralunar e do sublunar.

O supralunar era constituído de éter e se encontrava na lua adiante. Já o sublunar era formado de quatro elementos, a saber: terra, fogo, água e ar. Como a propriedade do éter era conservar e a da água, decompor, o mundo supralunar era eterno, constante, permanente, enquanto o mundo sublunar era finito, daí as coisas mudarem. Do nascimento à morte.

Ora, se o homem era constituído de corpo e alma, o corpo informava a existência da água e da imperfeição. Assim, não seria possível ao homem ter uma inteligência pura, como era a inteligência dos anjos, mas, mesmo com sua razão imperfeita, poderia acessar parte da verdade divina. Com essas considerações, tornava-se possível conciliar a razão com a revelação divina. A revelação divina às vezes nos informa coisas que a razão não tem a capacidade de entender.

Essa era uma forma inteligente de resolver as tensões provocadas na Europa em torno do conhecimento, conferindo espaço maior à razão. Tomás de Aquino se tornou o mais importante pensador escolástico, sendo seguido por inúmeros estudiosos da época. Seu trabalho intelectual, seu brilhantismo no trato com as palavras, valeu-lhe a manutenção das atividades universitárias e, adiante, sua canonização.

Os limites da razão

De acordo com Tomás de Aquino, existiam certas verdades que a razão humana não conseguiria atingir, pois esta era imperfeita, não podendo abarcar coisas que só a revelação divina, que só a fé poderia abranger. Com o intuito de explicitar as limitações da razão humana, Aquino desenvolveu reflexões acerca do intelecto humano, dividindo-o em dois: o passivo e o ativo.

intelecto passivo era aquele que recebia, pelos órgãos dos sentidos (corpo), informações acerca do mundo, as quais se fixavam em um lado do cérebro. O intelecto ativo era aquele que não olhava para o mundo, mas para o que estava contido no passivo, organizando as informações, percebendo as regularidades, compreendendo uma lógica no Universo.

Esse intelecto ativo era uma espécie de luz divina, uma fagulha a iluminar certos aspectos das verdades. Dessa forma, tudo o que fosse construído como conhecimento no jogo entre intelectos passivo e ativo era a verdade possível ao entendimento racional humano.

Existiam, entretanto, coisas muito além deste entendimento que, ao homem, deveria ser atendido pela fé piedosa, pela revelação presente nas Sagradas Escrituras. Assim, as verdades da razão natural não poderiam contradizer as verdades da revelação, pois estas estavam muito além das considerações intelectuais humanas, mas todas as verdades da razão natural seriam, de forma lógica, não contrárias à fé.

Em última instância, o que estava afirmado era a existência de um limite da razão natural. Tudo o que fosse construído pela razão natural estaria contido na verdade divina, mas a verdade divina, mais abrangente, poderia ser alcançada pela , pela revelação.

O mérito de Tomás de Aquino foi o de garantir espaço para as discussões pautadas pela chamada razão natural. Esse foi um passo importante para o futuro desenvolvimento científico.

As cinco vias

Segundo São Tomás de Aquino, tanto a razão como a fé conduzem à mesma verdade. Sua tarefa foi unir ambas em um único sistema, em que há predominância da fé – a filosofia submete-se a ela. Para ele, a razão pode provar a existência de Deus por meio de cinco vias, todas baseadas nos fenômenos do mundo sensível:

  • primeira via é a constatação de que as coisas estão em movimento. Nenhuma criatura, porém, pode mover-se por si; precisa de uma força externa que promova o deslocamento. Essa força também necessita de outra, exterior, que a coloque em movimento, e assim sucessivamente. Não se pode, entretanto, aceitar que a série de motores seja infinita; se fosse, jamais se chegaria à causa do movimento, o que tomaria impossível explicá-lo. Desse modo, a solução proposta por Tomás de Aquino foi a de aceitar que a série é finita e que seu termo primeiro é Deus.
  • segunda via constata que todas as coisas ou são causas ou são efeitos. Não se pode conceber algo que seja, a um só tempo, causa e efeito, pois se estaria afirmando que esse algo é anterior (causa) e posterior (efeito) simultaneamente, o que é absurdo. Aqui, como na primeira via, é preciso aceitar uma causa não causada para que a sucessão não se perca no infinito e, em consequência disso, não se possa explicar a causalidade. A causa não causada, para São Tomás de Aquino, é Deus.
  • A terceira via parte do princípio de que tudo está em transformação: coisas são geradas e perecem constantemente. Isso significa que a existência não lhes é necessária, mas contingente. Assim, sua existência depende de uma causa que tenha uma existência necessária: Deus.
  • quarta via refere-se à percepção de que há seres menos ou mais perfeitos do que outros. Mas apenas se pode saber o que é mais perfeito se houver uma referência que possibilite medir os graus de perfeição. Essa referência, no topo da hierarquia das coisas relativas, é a perfeição pura, Deus.
  • quinta via retoma essa hierarquia, afirmando-a como uma ordem em que cada coisa tem uma finalidade. Cada corpo, diz Aquino, apoiado em Aristóteles, busca seu lugar natural, mesmo que não perceba essa busca. Assim, deve haver uma inteligência superior que leve os seres a agir, para que todos cumpram sua finalidade. Essa inteligência organizadora é Deus.

Texto de São Tomás de Aquino

O livre-arbítrio

O homem tem livre-arbítrio. Do contrário, conselhos, exortações, ordens, proibições, recompensas e punições seriam em vôo. (…) O homem age com base no juízo porque, por meio de seu poder de conhecer, julga que algo deve ser evitado ou procurado. E porque seu julgamento (…) não provém de um instinto natural, mas de um ato de comparação racional, ele portanto age por livre julgamento e detém o poder de inclinar-se a várias coisas. (…) Agora, as operações particulares são contingentes, e portanto, nesse assunto, o julgamento da razão pode seguir caminhos opostos, sem estar determinado a um deles. E, uma vez que o homem é racional, deve ter livre-arbítrio.

Tomás de Aquino, Suma teológica. Questão LXXXIII, “Do livre-arbítrio”. Artigo 1, Resposta.

Créditos: Wilson Teixeira Moutinho


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Equipe Tête-à-Tête