Os vivos
são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes e vozes

Se devoram os mortos
devoram os outros vivos:
pelos olhos e sexo
elogio, sorrisos

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que vêem
o que cheiram e tocam

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

O mar a pedra a manhã
– que ele queima em seus risos –
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

e onde habita alguém
– seja espírito ou não –
alimentado também
por essa combustão

que tudo vaporiza.

Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa.

Ferreira Gullar (1930-2016)


Até mais!

Tête-à-Tête