Joaquim Maria Machado de Assis é o grande nome da literatura brasileira. Foi poeta e dramaturgo, mas foi na prosa que se tornou o grande nome deste país. Para além de escrever, fundou a Academia Brasileira das Letras, dando-lhe o cunho multicultural do país e, também, multilingue, já que o autor se tornou autodidata no conhecimento do francês, do inglês, do alemão e do grego. O “Bruxo do Cosme Velho” – ganhou esta alcunha por, enquanto vivia, no final da sua vida, na Rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, ter o hábito de queimar os seus documentos caducados num caldeirão, ficando conhecido como “bruxo” – cresceu nessa mesma cidade, no Morro do Livramento. Cresceu numa família pobre, de ex-escravos que tinham sido libertados dessa condição, no seio da qual nasceu a 21 de junho de 1839. Era mulato e viu a sua ascensão social dificultada, que exigiu o exercício de um sem número de funções governativas e a presença em variadíssimos jornais.

O seu pai era pintor, a sua mãe, portuguesa, era doméstica, e os seus avós seriam “emprestados” pelos donos daquela propriedade onde viviam. Tinham, assim, uma proteção social que lhes permitiu viver com algumas possibilidades, nomeadamente com o acesso à escola para o filho, que travou conhecimento com alguns padres, que o ajudaram a expandir os seus horizontes. A sua mãe faleceria aos dez anos de idade de Assis, que, entretanto, tinha aulas numa escola só para mulheres, aproveitando o trabalho que a sua madrasta lá tinha. Pouco tempo depois, casaria com, também ela, uma mulata, Maria Inês da Silva. Um ano depois, em 1855, já publicava poemas em jornais locais, para além de se tornar funcionário na Imprensa Oficial. Aqui, conheceu o autor Manuel António de Almeida, seu superior, que o incentivou a escrever mais, para além de importantes membros do Partido Republicano.

A sua vida, apesar de algumas férteis colaborações em jornais locais, era com o pão de cada dia, tendo uma refeição única por jornada. Mesmo assim, as amizades que ia travando, como com o escritor e político José de Alencar, abriram-lhe constantemente mais horizontes, como o mundo anglófono, tanto no domínio da língua, como com a sua literatura. A sua paixão pelo teatro, agora depois de conhecer William Shakespeare, levou-o a redigir algumas peças de teatro, nas quais assinava com o nome com que ficaria conhecido daí em diante: Machado de Assis. Aliás, faria, de igual modo, traduções de obras, como de Edgar Allan Poe, de Charles Dickens ou até do francês Victor Hugo. Envolveu-se, de igual modo, na política, em especial em causas liberais e de liberdade religiosa. O seu pai faleceria aos 25 anos de idade de Assis, que lhe dedicaria, a si e à sua mãe, a coleção de poemas “Crisálidas” (1864), para além de mencionar uma musa, de quem não se conhece o nome. Entretanto, o Partido Liberal, do qual o autor fazia parte, ascendeu ao poder e o próprio imperador de então, Dom Pedro II, chamou-o para diretor-assistente do órgão de comunicação estatal, para além de o galardoar com a Imperial Ordem da Rosa em 1867, aos 28 anos de idade.

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Crisálidas (1864)

Machado de Assis voltaria a casar-se, dois anos depois, com Carolina de Novais, uma portuguesa, apesar das reservas que a família desta tinha, dado que o escritor era mulato e a família da portuguesa era, toda ela, puramente europeia. Porém, o brasileiro vingaria pelo trabalho e, em abono da verdade, por alguns conhecimentos que vinha obtendo e, como tal, chegou à chefia do Departamento da Agricultura do governo. Entre breves coleções de poesia (“Falenas”, de 1870, e “Americanas”, de 1875, onde se retratam várias figuras femininas do imaginário brasileiro, em busca da descoberta das suas identidades), chegariam os romances, que lhe imortalizaram em toda a literatura: em 1872, “Ressureição”, um romance mais psicológico que dramático, norteado por uma grande reserva ao nível da expressão dos sentimentos, onde se nota um maior estudo das personagens que o seu confronto. Narra a história de um médico que troca de amantes a cada seis meses até que conhece uma viúva, irmã de um grande amigo seu, que lhe troca as voltas desse percurso passional. Dois anos depois, surge “A Mão e a Luva”, escrita na forma de um folhetim, particionado por várias edições do jornal “O Globo”, em que uma mulher de Botafogo é cortejada por três homens, sendo eles potenciais maridos. Novamente, uma preferência por uma finura de costumes e de toques linguísticos.

“Helena” surge em 1876, com outras nuances. É algo mais arriscado, aventurando-se pelos amores proibidos, pelos mistérios do passado, pela força do destino e, enfim, pelo fim trágico. Helena é a grande protagonista, nascida numa família pobre, sendo que os seus pais se cruzaram sem qualquer união conjugal. A transformação das personagens e a sua modelação entre as classes sociais profetiza o futuro papel da mulher, mais alinhada com a modernidade e com a sua autonomia de seres, saberes e fazeres. Começava, enfim, a vingar pela sua qualidade literária, comprovado por “Iaiá Garcia” (1878), onde, no bairro Santa Teresa, no Rio, se apresenta o triângulo amoroso Estela-Jorge-Iaiá, e, perante as vicissitudes sociais que impedem o casamento de Jorge e de Estela, de uma classe social mais pobre, o alistamento dela na Guerra do Paraguai e um casamento por conveniência, procurando, através da estima, chegar ao amor. Porém, após a morte do seu amigo Alencar, e após sofrer vários ataques epiléticos, começou a recear a morte e a tornar-se cada vez mais abúlico. É neste contexto que surge o seu maior trabalho: as “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880), também ele publicado como folhetim. O pessimismo, a ironia, o desprezo e o ceticismo dominam a obra e desconstroem os preconceitos da literatura romantista, abrindo, enfim, espaço para que se pudesse cimentar o realismo. Brás Cubas, já morto, pretende escrever a sua autobiografia e refletir sobre a sociedade em que viveu, tecendo uma rasgada crítica a toda ela, para além de reconhecer os seus erros e as suas paixões frustradas.

A forte hierarquização da sociedade, assim como a presença da escravidão e a emergência de um pensamento alinhado com a ciência e com a corrente positivista do conhecimento levam à fundação de uma visão cada vez mais “humanitista”. É a que defende a personagem fictícia Quincas Borba, que procura desconstruir a lei do mais forte, proveniente do pensamento de Charles Darwin. Há um forte pendor satírico neste, abrindo espaço para o método socrático da pergunta-resposta puder concluir que, enfim, o humanitismo é a única visão possível, que anula qualquer pensamento religioso e sistema de crenças, para além de excluir o sexo, o sofrimento e de afirmar a inferioridade da mulher. Todo este discurso é uma crítica de Machado de Assis à sociedade cada vez mais “cientificizada” e “darwinizada”, prolongando-o quando escreve “Quincas Borba”, em 1891, contado na terceira pessoa, relatando a história de Rubião, um jovem que se torna discípulo de Borba, depois de ser desencantado por um amigo capitalista.

E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.

Quincas Borba (1891)

Depois do imenso sucesso das “Memórias Póstumas”, tornou-se mais hábil no discurso, procurando não causar grandes polémicas. Oposto à escravatura, mantinha-se discreto sobre questões fraturantes e de foro político, mesmo apesar da crítica que lhe era visada por importantes nomes do movimento abolicionista. Assis assistiu à queda da monarquia, a 15 de novembro de 1899, com algum desagrado, dada as suas afinidades com o regime monárquico e com o próprio imperador. Isso não o impediu de continuar a escrever obras de referência de toda a literatura brasileira. “Missa do Galo” (1899) é uma pequena história que faz parte da coleção “Páginas Recolhidas”, lançada nesse ano, em que uma paixão platónica se vai formando na véspera de Natal, entre um jovem que visita o Rio de Janeiro e uma mulher que, apesar de casada, é submissa a um caso extraconjugal que o seu marido tem. É, também, o caso de “O Caso da Vara”, onde um fugitivo do seminário procura fugir a casa dos pais mas refugia-se numa casa em que vive uma jovem negra, que é escrava da dona dessa residência. Antes, em 1882, já se havia aventurado em contos, num caso híbrido como é “O Alienista”, em que o doutor Bacamente, um psiquiatra (ou alienista) cria uma “Casa Verde” para realizar estudos sobre a mente humana, de forma a procurar explicar a infertilidade da sua esposa. Este conto consta no livro “Papéis Avulsos”, que engloba mais doze histórias que dialogam entre si, apesar dos seus diferentes formatos, desde cartas a ensaios e anedotas.

Outros livros de contos que fariam, de igual modo, sensação seriam “Contos Fluminenses” (1870), “Histórias da Meia-Noite” (1873, com um forte pendor sobre a ganância),”Ocidentais” (1880) “Histórias Sem Data” (1884) , “Várias Histórias” (também de 1884, em muito envolvido pelo fatalismo e pelo niilismo, um pouco à imagem do existencialismo literário do russo Fiodor Dostoievski, herança das “Memórias Póstumas”) e “Relíquias da Casa Velha” (1906). Do teatro, fica na memória “Desencantos” (1861), dedicado ao seu colaborador e superior em diversos jornais cariocas, para além de grande amigo, de seu nome Quintino Bocaiúva. É uma peça que, de novo, volta às questões cortesãs e ao galanteio por parte de dois homens a uma jovem viúva, levando a que o recusado parta para longe e regresse com sede de vingança. É uma obra que bebe, à imagem de outras peças e de outros romances, de um ensaio escrito por um advogado belga, Victor Hénaux, que Assis traduziu: “Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos” (1850), publicado em 1861 na revista “A Marmota”. Traduzida, assim, pelo autor, acabou por se transformar numa referência para si, em que os homens mais desenvoltos seriam aqueles mais inconsequentes e superficiais; sendo que os mais munidos de espírito e de valia acabariam encolhidos graças à sua introspeção e sensibilidade.A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.

“Dom Casmurro” (1899)

Também em 1899, é escrito “Dom Casmurro”, o terceiro da trilogia realista (ao lado das obras de Brás Cubas e de Quincas Borba), onde, agora, é Berto Santiago que procura desenhar a sua biografia, alinhando o passado pueril com o presente da adultidade. Neste percurso, passa pela sua estadia no seminário e a relação que tem com Capitu, que seria acusada de adultério e que é a grande paixão do protagonista. A intertexualidade entre a dramaturgia de Shakespeare, o pensamento de Arthur Schopenhauer e as suas anteriores obras, situa a ação ainda no Império Brasileiro, em plena cidade do Rio de Janeiro, em que o ciúme e a presumida inocência de Capitu norteiam a tensão psicológica que move todo o romance. Cinco anos depois, “Esaú e Jacó” joga com os opostos bíblicos que fazem retornar às origens sóbrias e melancólicas da sua escrita. O narrador, Conselheiro Aires, contracena com o par de gémeos, Pedro e Paulo, que entram em confronto em toda a dimensão da sua vida. Desde a política até à vida romântica, há um choque constante, que ajuda Assis a problematizar o antes e o depois da proclamação da República no Brasil. O seu possível prolongamento chega em “Memorial de Aires” (1908, no ano da morte do autor), em que este conselheiro, que é quase permanente em toda a literatura do escritor, se torna, ele próprio, narrado. Ele é quase a expressão ficcional de Machado de Assis, contando o seu dia-a-dia com a sua mulher, Carmo, com quem, de igual modo, também não tem filhos.

Na sua vida pública, Machado de Assis concretizaria mais um grande feito: a fundação da Academia Brasileira de Letras. Ao lado dele, outras figuras monárquicas do Brasil, sendo, ao todo, quarenta autores aqueles que, a 15 de dezembro de 1896, anunciaram a fundação desta instituição, da qual seria presidente até ao ano da sua morte, 1908, quatro anos depois da sua esposa, depois de mais de trinta anos de vida comum. A responsabilidade da instituição tornou-se a de cuidar do português como seu idioma nacional e de promover as expressões artísticas brasileiras. Aliás, seria a própria instituição a responsável por criar e perpetuar o prémio Machado de Assis, o galardão mais importante de toda a literatura nacional. A Academia passou a ocupar, em 1902, o edifício do Ministério da Indústria, e a consagrar os “imortais”, os quarenta membros que, daí em diante, fariam parte deste órgão, com associação aos seus fundadores.

Machado de Assis, quatro anos depois da sua esposa falecer, viria a partir a 29 de setembro de 1908, já sozinho e desencantado. Para trás, ficou um legado imenso, que o perpetuou na história dos romancistas literários. Com um rasgo algo pessimista, tornou-se cada vez mais conhecido fora de portas e chegou a ser considerado, por muitos críticos estrangeiros, como um dos melhores cem romancistas de todos os tempos. A sua polivalência e maleabilidade transformam-no num dilema para aqueles que o pretendem catalogar: realista, sim, mas não deixa de fazer frente e de causar choque a essa potencial realidade objetiva; descritivo, sim, mas sem abdicar de ser inovador, sofisticado e até romântica na forma como retrata a sociedade e os seus constituintes; expositivo, sim, mas dando nota das fragmentações e das contradições sociais, levantando dúvidas e interrogações quanto às suas disfunções; posicionado no tempo, sim, mas sem nunca abdicar de uma ironia quanto ao passado que conduz à presente conjuntura e de uma comunicação que procura estabelecer com o futuro da humanidade.

Machado de Assis é o grande rosto da literatura brasileira. A sua influência é quase incontornável em todo e qualquer autor subsequente à sua morte no Brasil, mas também a cineastas e a intelectuais de fora, apesar de permanecer como um autor de nichos fora dele, nas suas bancas, ainda rotulado com uma dimensão elitista. Apesar desta conotação, a sua diversidade criativa e a sua capacidade de retratar uma sociedade ainda, em muito, hierarquizada e fragmentada tornou-o, para além de um fiel retratista do seu país, alguém capaz de construir narrativas diversas, com o prisma da virtude e da limitação humanas. Desta forma, e perante os cânones da literatura, trata-se de uma referência, que, à imagem de Luís de Camões ou de Fernando Pessoa em Portugal, alcança o estatuto que hasteia a bandeira e os valores designados por ela. Em suma, representa o país como uma das suas vozes mais proeminentes, que ressoa para o passado, se escreve no presente e se projeta, decerto, no futuro.Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

Fonte:comunidadeculturaearte/Por Lucas Brandão


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Equipe Tête-à-Tête