1977. Os dois primos, com treze anos de idade, estavam naquela fase em que as espinhas brotam da noite para o dia como cogumelos em bosques úmidos. A voz, adquirindo uma tonalidade mais grave, era entrecortada por semitons inesperados que lembravam um improviso de jazz. Os meninos estavam crescendo rápido. Magricelas, joelhos proeminentes, pernas finas, pouca bunda, viviam andando de bicicleta pelas ruas ainda pacatas da cidadezinha do interior. Mesmo desfavorecidos pela explosão de hormônios, cada um já tinha a sua namoradinha, muito embora elas não fizessem a mínima ideia das suas existências. Coisa irrelevante.

Num certo dia, depois de terem almoçado na casa dos avós, coisa que faziam com frequência, determinados a dar um novo e decisivo passo em direção à tão sonhada independência masculina, pediram alguns trocados ao avô para tomarem um cafezinho na padaria central. O local, como bem sabiam, reunia rodas de estudantes, políticos, funcionários públicos, empresários e malandros, enfim, quase um laboratório apropriado para estudos antropológicos, uma espécie de bolsa de valores humanos. Ansiosos para participar daquele pequeno núcleo social, e quem sabe até conhecer gatinhas de verdade, já estavam prontos para sair correndo pela porta da frente da casa e atravessar a praça da matriz em direção ao badalado point. Pela primeira vez sentariam, orgulhosos, junto ao extenso balcão que havia no local e levantariam a mão para pedir o tal cafezinho que simbolizaria o passaporte para uma outra fase de suas vidas, pensavam.

Sensível ao apelo dos garotos, o avô olhou com candura para cada um deles, passou a mão em suas cabeças e esboçou um sorriso compreensivo. Em seguida voltou-se para a avó e solicitou para que ela passasse um café novinho para que os netos saciassem a fome. Era um homem prático. Desapontados, os dois se olharam e seguraram o riso antes de se dirigirem à cozinha onde sentaram, resignados, e saborearam o regalo feito pela avó, acompanhado de pão e manteiga. As bicicletas os esperavam à porta dos fundos.      

Benhur Debastiani Teixeira


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête