I.

No século X, o poeta iraquiano Al-Mutanabi escreveu estes versos: “A noite, os cavalos e o deserto me conhecem/ E a espada e a lança, e o papel e a pena”. Queria dizer, com isso, que era tão exímio espadachim quanto poeta; e o teor duplamente imodesto dessas linhas tornou-o famoso dos mercados de Marrakesh até os desertos dos tártaros. Um dia, viajando entre Bagdá e Damasco na companhia de um servo, Al-Mutanabi avistou um bando de salteadores e fez menção de fugir. O servo então exclamou: “Mas e a noite, e os cavalos, e o deserto, e a espada, e a lança?” Não querendo estragar sua reputação entre os pósteros, Al-Mutanabi puxou a cimitarra e enfrentou os bandidos. Naturalmente, caiu morto (e quem sabe, em seu último instante, tenha pensado: “aquele poema me matou”). Seis séculos depois, Ludovico Ariosto escreveu o “Orlando Furioso”, obra que se tornou imensamente popular em toda a Itália. Certa noite, cruzava a áspera região da Garfanhana, quando foi cercado por um grupo de bandoleiros. Preparavam-se para degolá-lo, quando um deles exclamou: “Mas é il signor Ariosto!”, e outro completou: “O autor do Orlando!” Bendito o ermo cujos celerados tem bom gosto literário! Não apenas lhe pouparam a vida, como o escoltaram em segurança até sua casa, entre abraços, vênias, aplausos e profusas considerações críticas sobre a excelência de seus versos  (e quem sabe Ariosto tenha pensado então: “esse poema me salvou”).

Há anos, sou obcecado pelo curioso espelhamento dessas estórias, separadas pelos séculos, pelas línguas e pelas águas do Mediterrâneo ? estórias provavelmente apócrifas, sim, mas que parecem carregar uma intrigante espécie de verdade, especialmente quando postas lado a lado. Que esses dois relatos existissem em um mesmo mundo e que houvessem chegado até mim, por sinuosos meandros da leitura, era algo que me sugeria um sentido elusivo, tremulando no limite da compreensão. A chave do meu fascínio residiria, talvez, na oposição, ao mesmo tempo simétrica e arbitrária, entre a boa e a má fortuna? Ou na ideia de duas vidas postas à mercê do ato da escrita?  Pode ser; mas ambos os sentidos poderiam ser expressos de outra maneira; e o que me espantava é que eu os tivesse encontrado daquela forma, naquela dupla anedota. Às vezes, após muito ponderar, eu dava de ombros e concluía: “Bom, são apenas duas belas estórias”. Mais tarde, acabei recordando “A muralha e os livros” ? primeiro ensaio de Outras Inquisições e um dos pontos altos nas elucubrações borgeanas. Nesse texto, Borges fala de sua própria obsessão pela figura do imperador chinês Shih Huang Ti: aquele que ordenou a construção da Grande Muralha e, também, a destruição de todos os livros do império.

A conjunção dessas circunstâncias, diz-nos Borges, “me satisfez e, ao mesmo tempo, me inquietou”. Tentando investigar sua própria emoção, o argentino lhe confere vários sentidos possíveis: quem sabe a beleza dessa história esteja na oposição entre os atos de destruir e construir; quem sabe, na grandiosidade e no absurdo implícitos à ideia de fechar fisicamente um país enquanto se lhe cancela o passado. Borges acaba concluindo, no entanto, que certas coisas, certas paisagens, certas narrativas exercem sobre nós, por si mesmas, um domínio inexplicável, anterior a todas as interpretações. Borges termina o ensaio com um parágrafo que jamais será suficientemente citado: “A música, os estados de felicidade, a mitologia, as caras trabalhadas pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares, querem dizer-nos algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão por dizer algo; essa iminência de uma revelação, que não se produz, é, talvez, o fato estético”.

II.

Na concepção borgeana do “fato estético”, podemos identificar, de saída, elementos distintos: a promessa de um sentido (que jamais se apreende de todo); o mistério (porque esse sentido nunca se revela); e a nostalgia (pois resta a sensação de havermos perdido algo que deveríamos guardar). Mas Borges parece sugerir que essa perda é, em si mesma, necessária à ideia da beleza:  quando o enigma se resolve, a Esfinge se precipita no abismo e a história acaba. A beleza é essencialmente misteriosa, e tanto mais eficaz por ser insolúvel; talvez haja algo de secretamente filistino em querer decifrá-la de forma exaustiva. Não por acaso, Borges antipatizava com quaisquer tentativas de reduzir o “fato estético” ao mero funcionamento de engrenagens psicológicas, sociais ou econômicas.

Talvez seja prudente assumir, portanto, que à pergunta “o que é a beleza?” só se possa responder por meio da tautologia (“é a qualidade do que é belo”) ou do exemplo (“beleza é o que experimentamos ao entrar na Capela Sistina” ? para ficarmos com a ilustração mais notória). Mas, ainda que não saibamos definir exatamente a beleza, resta muito a ser dito sobre o ato de contemplá-la e sobre sua importância naquilo que costumamos chamar de “condição humana”. E é isso que faz, de forma magistral, o filósofo inglês Sir Roger Scruton: em seu livro Beleza e no documentário Por que a beleza importa?, o desgrenhado cavalheiro de Lincolnshire não se dedica a decifrar o enigma nem a matar a esfinge, mas a examinar o que ocorre à mente humana na presença da beleza ou em sua ausência. Quando nos convencemos estar diante de algo belo, diz Scruton, experimentamos uma parte do mundo, um criatura, uma obra, uma visão, uma melodia, como um fim em si mesma. A contemplação da beleza é o que nos salva ao fanatismo utilitarista: um belo poema, uma bela música ou uma bela obra de arte não podem ser avaliadas por sua utilidade prática; não são meios para alguma outra coisa, mas têm valor em si mesmos, pelo simples fato de existirem. Devemos agir diante da beleza como agiríamos diante da amizade autêntica: se valorizamos um amigo apenas porque ele é útil, a verdade é que talvez não tenhamos amigo nenhum.

O grande paradoxo da beleza é que, se aceitarmos sua inutilidade essencial, ela pode se tornar infinitamente útil, chegando, às vezes, ao ponto de nos salvar a vida, como ocorreu com Ariosto. “A beleza nos desafia a encontrar sentidos em seu objeto, a fazer comparações críticas e a examinar nossas vidas e emoções  à luz do que encontramos”, escreve Scruton. “A arte, a natureza e a figura humana nos convidam a situar essa experiência no centro de nossas vidas. Se o fazemos, então encontraremos um lugar de repouso do qual jamais nos cansaremos”.

A beleza é um dos confortos humanos em meio à tempestade e ao desatino da existência; mas ela não nos consola escondendo as dores do mundo. Pelo contrário: das tragédias de Ésquilo ao Adágio para Cordas de Samuel Barber, o poder criador da mente humana se mostra mais forte quando eleva nossas mazelas à altura do sublime. Para os teimosos que continuam a buscá-lo, o “fato estético” oferece um credo relativamente simples, mas de muita valia em nosso mundo complicado; esse credo está perfeitamente explicado em certa passagem escrita por Gottfried von Strassbourg no século XIII, passagem que poderia ser colocada, junto à Capela Sistina, na antologia de exemplos a que se recorre para explicar o significado essencial do belo:

“Não me refiro ao mundo daqueles que (segundo ouvi dizer) não toleram o pesar, e só desejam o perpétuo regozijo (que Deus lhes permita viver em bem-aventurança, então!). Esse mundo nada tem a ver comigo ou com meu relato. Um outro mundo tenho em mente; um mundo que carrega, juntos, em um mesmo coração, sua amarga doçura e sua querida tristeza; o deleite de sua alma e a angústia de seu desejo; sua cara vida e sua triste morte; sua cara morte e sua triste vida. Que eu possa ter, neste mundo, o meu mundo, para com ele ser condenado, ou para com ele ser salvo”.

Créditos: José Francisco Botelho (autor de Cavalos de Cronos (Zouk, 2018), grande vencedor do prêmio Açorianos em 2019. Para estadodaarte.estadao


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Equipe Tête-à-Tête