– Licença? – Vestindo terno branco, impecável, o homem de estatura mediana e magro foi sentando na primeira poltrona vazia que encontrou antes de afrouxar a gravata e abrir o botão da gola da camisa. Fazia um calor de quase quarenta graus no interior do ônibus cujo trajeto ia do centro da cidade ao bairro do Zelão, na periferia. Depois de reclinar o encosto e antes de espichar o corpo para relaxar, levantou e colocou no bagageiro, logo acima da cabeça, a maleta preta que tinha sobre o colo. Sentado na poltrona ao lado, junto à janela, um homem de meia idade, com óculos escuros e que vestia uma camiseta cavada e bermudas, acompanhava todos os seus movimentos olhando por cima dos aros, enquanto se abanava com um jornal velho e que servia de leque.

– E esse mormaço? – Puxou conversa tão logo o outro sentou.  

– Nem me fale! Correr o dia todo desde manhã cedo neste calorão é coisa que só faço por amor ao negócio. Retirou o chapéu branco da cabeça e colocou sobre o colo.  

As janelas abertas canalizavam para dentro da lotação o cheiro do óleo desprendido do asfalto aquecido pelo sol escaldante.

– O amigo faz o quê? Se é que não se ofende com a pergunta.

– Que nada! Sou representante comercial. Só trabalho com coisa de primeira linha! Qual a sua graça mesmo?

– Simão. Mas os amigos me chamam de Sima. E o seu? 

– Adamastor. Adamastor de Alcântara Menezes. – Disse sorrindo ao bater com a mão no peito de Simão, como fosse um velho conhecido seu – Prazer.

– Prazer.

Adamastor voltou a sentar, tirou os sapatos dos pés e fechou os olhos, dando a entender que a conversa chegara ao fim.

– Um negociante como o senhor deve conhecer muita gente importante por aí, não?

Sem abrir os olhos, o outro se limitou a emitir um lacônico “é”.

– E o amigo mora no Zelão? Simão ficou intrigado com o fato do comerciante ter embarcado com destino à uma das maiores favelas da cidade.

– Vou lá para visitar uns clientes. Sabe como é, o networking é importante no meu ramo.

– Ah…o amigo trabalha com antenas também.

Adamastor deu uma gargalhada.    

– Ih! Não bastasse este calor miserável, estão dando batida de novo. – Simão estava olhando para uma barreira logo à frente do ônibus.

– Estão o quê? Adamastor ergueu um pouco a cabeça e olhou para Simão de canto de olho.

– Batida da polícia. Quase toda semana param o ônibus para ver os documentos e revistar alguma bagagem suspeita. Sempre a mesma coisa e nunca acham nada. Parece que é mesmo só pra atazanar a vida do pobre!

Agitado, Adamastor voltou a poltrona para a posição normal, colocou o chapéu na cabeça e calçou os sapatos. Olhou para os lados e para a parte de trás do ônibus como se estivesse procurando por algo.

– O amigo está bem?

– É que essa gente não gosta de liberais como eu e implica com detalhes insignificantes. Na minha profissão trabalhamos para desburocratizar as transações e agilizar a circulação da moeda.

– Ah! – Simão não compreendeu nada.

O ônibus foi reduzindo a velocidade e encostou no meio fio junto à calçada, atendendo à ordem de um dos policiais que estava plantado bem no meio da pista segurando um fuzil. Em seguida, dois policiais entraram pela porta da frente e começaram a abordar cada um dos passageiros para pedir documentos e revistar a bagagem enquanto outros verificavam o porta malas externo junto com o motorista.

– Oba! Uma janela vaga! – Disse Adamastor ao companheiro, indo sentar numa poltrona localizada mais atrás de onde estavam.

– Não esqueça sua maleta – Simão apontou para cima.

– Sim! Depois eu pego.

A inspeção progredia em direção ao fundo do carro, sem qualquer incidente como Simão já havia previsto. – Só mesmo pra torrar a paciência com todo este calorão – disse em voz baixa segundos antes de ser interpelado pelo policial com cara de poucos amigos.

– Identidade?

Resignado, apesar de irritado, Simão levou a mão ao bolso da camisa para pegar o documento e mostrá-lo mais uma vez aos ratos, como chamava os homens da lei. – Ué! Mas tava aqui! – Levantou e procurou nos bolsos da bermuda, da frente e de trás, mas não encontrou nada. – Ué, ué! – repetia enquanto apalpava o corpo todo.

– E a sua bagagem?

– Não tenho, não senhor.

– E a maleta aí em cima?

– Não e minha, não. É daquele senhor sentado lá atrás, na janela – Apontou na direção de Adamastor.

– Ah, tá bom! – Disse o guarda. – O senhor pode pegá-la e abrir pra nós?

– Mas não é minha, eu já disse que…

– Se o senhor continuar insistindo vai ser pior! – O próprio policial pegou a maleta do bagageiro e a jogou sobre a poltrona vazia. – Ande, agora abra!

Simão olhou para trás e acenou para Adamastor, que se fez de desentendido. Permaneceu olhando para a rua através da janela e assobiando algo baixinho.

– O senhor vai querer insistir? – O policial estava com a mão sobre o cassetete.

 Nervoso e suando muito, além do que o calor provocava, não lhe restou outra alternativa senão pegar a maleta preta e abri-la depois de alguns segundos lidando com as duas fechaduras.

– Ora, ora! O que temos aqui? Sarcástico, o policial foi revirando o conteúdo variado que a maleta continha. Relógios, anéis e correntes de ouro além de carteiras de bolso. – Que interessante! O senhor pode me mostrar a nota fiscal de compra destes objetos? Com exceção, é claro, das carteiras que estão recheadas de dinheiro, inclusive com documentos, como esta aqui, ó! – E abriu a carteira para mostrar o conteúdo ao outro policial que já se aproximara dele.

– Pelo amor de Deus! Isso não é meu! É só o senhor falar com aquele homem de chapéu ali atrás, o Adamastor. Ele vai esclarecer tudo rapidinho.

O policial pediu ao ajudante recém-chegado que abordasse o tal homem, apontado por Simão, para verificar a veracidade da informação prestada. Enquanto isso, ordenou para que mantivesse suas mãos sobre as pernas, bem à vista de seus olhos.

– Bom dia! O senhor pode mostrar seus documentos?

– Algum problema? – E foi logo tirando a identidade do bolso de dentro do casaco.

– Chefe?

– Fala!

– Batista da Silva. – Disse levantando a mão e mostrando a carteira de identidade.

– Mas do que se trata?

– O sujeito ali da frente disse que aquela maleta preta é sua.

– E por acaso não disse que eu era um tal de Adamastor?

– Sim! Como sabe?

– Vi ele chamar dois passageiros por este nome desde que embarquei. Vai ver não bate bem da cabeça!

Simão se desesperou e tentou sair de onde estava. Queria chegar até aquele que se apresentou como Adamastor, o dono da maleta. Foi contido à força pelos policiais que agora já eram quatro.

– Adamastor! Adamastor! Diz quem tu é! Adamastor! Pelo amor de Deus! – Simão berrou até levar um cascudo na cabeça.     

– Quieto! Sempre desconfiei desta tua carinha de santo. Toda vez que te abordava dizia pra mim mesmo: Não sei onde ele esconde o bagulho, mas que tem caroço neste angu, ah, isto tem. – Podem levá-lo pra delegacia, tem muita conta pra acertar.

  E lá foi Simão, arrastado, aos berros: sou inocente, sou inocente, Adamastor! Me ajude!

– O senhor me desculpe pelo mal-entendido, seu Batista. – Disse o policial ao devolver a carteira de identidade.

– Se não fossem vocês estes malandros não teriam limites.

O ônibus seguiu a viagem rumo ao bairro do Zelão tão logo a polícia desceu com Simão algemado e sua maleta repleta de furtos. Adamastor, ou Batista, levantou para descer na próxima parada.

– Senhor? Sua carteira! – O cobrador o chamou enquanto caminhava para a porta, apontando para o documento caído sobre o banco onde estava.

O comerciante retornou, pegou a tal identidade, e depois de analisá-la, entregou ao homem da catraca. – Não sei, é de um tal de Simão, vai ver ele deixou cair.   

Ao descer, o homem fechou o botão da gola e apertou o nó da gravata antes de sair caminhando, malemolente, de volta ao trabalho nas ruas.

A viatura policial passou por ele lentamente quando seguia para a delegacia. Sentado no banco de trás, Simão começou a gritar assim que o enxergou: É ele! Seu guarda! É ele, o Adamastor! É ele! Adamastor, desgraçado!  

    

Judá D’Balaguer


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête