Mario Quintana ficou conhecido por ser o poeta das coisas simples. Dentro dessa simplicidade, esteve sempre a elementaridade. Por vias irónicas e profundas, nunca deixou de se entretecer através de uma técnica primorosa e venturosa, alcançando feitos de vulto para a poesia brasileira. Como tradutor, encheu o caudal das estantes canarinhas com os livros de autores, como Marcel Proust e Virgínia Woolf. Porém, ao nunca se desvincular da poesia, que foi, também ela, sua até aos anos 90, Quintana apresentou os mundos esquecidos e nutridos pelo mais benévolo coração, pelo mais comovente refrão, pela mais inusitada sensação.

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Caderno H” (1973)

Mario de Miranda Quintana nasceu a 30 de julho de 1906, no estado do Rio Grande do Sul. Os primeiros estudos deram-se no pequeno município de Alegrete, onde havia nascido, na Escola António Cabral Beirão, passando a viver em Porto Alegre no ano de 1919. Aqui, estudou no Colégio Militar, que viria a conhecer as suas primeiras criações, trazendo da sua vila a aptidão no francês e o interesse pela escrita. Assim, faria parte da revista Hyloea, pertencente à Sociedade Cívica e Literária do colégio, a partir do pseudónimo JB. Após deixar os estudos, passou a trabalhar na livraria O Globo, onde ficou durante três meses, voltando à sua terra para a farmácia da sua família. 1926 e 1927 seriam anos duros para o escritor, que perderia os seus pais, e só conseguiu superar esse rumo negativo dos acontecimentos com um prémio num concurso do Diário de Notícias de Porto Alegre, vencendo-o com o conto “A Sétima Passagem”.

Como tradutor, começou em 1929, na redação do jornal O Estado do Rio Grande, que notabilizaria o autor, na medida em que viu a Revista Globo, aliada ao Correio do Povo, a partilhar vários versos seus. Com a revolução de 1930, que abalou o estado de Rio Grande do Sul, passou a viver no Rio de Janeiro, onde ficaria durante sete meses, após se tornar voluntário no organismo militarizado Caçadores de Porto Alegre. No regresso, voltou ao periódico onde escrevia, e foi traduzindo obras notáveis para a Editora Globo, como “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, e “Mrs. Dalloway”, de Woolf, destinando aos olhares e leres dos canarinhos, para além de obras dos franceses Honoré de BalzacVoltaire ou Guy de Maupassant. Em 1953, tornou-se colunista de cultura no “Correio do Povo”, onde esteve até 1977.

As obras de Quintana conheceram as bancas, pela primeira vez, no ano de 1940, com “A Rua dos Cataventos”, aos seus 34 anos, pouco tempo depois de passar para a Livraria do Globo, onde colaborou com o também escritor Érico Veríssimo. Em 1966, aos 60 anos de idade, viu a “Antologia Poética” do seu eu criativo ganhar forma, a partir da organização efetuada pelos autores Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Isto após “Canções” (1945), “O Aprendiz de Feiticeiro” (1950), “Espelho Mágico” (1951, prefaciado por Monteiro Lobato); e antecessora de “Quintares” (1976), de “O Baú de Espantos” (1986), e de “O Velório Sem Defunto” (1990), abrangendo obras infantis, como “Nariz de Vidro” (1984). De igual forma, denota-se a poesia de “Sapato Florido” (1948), “Caderno H” (1973), “Pé de Pilão” (1975), “Esconderijos do Tempo” (1980, que lhe valeria o prémio Machado de Assis nesse mesmo ano) e “Lili Inventa o Mundo” (1983).

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

A Rua dos Cataventos” (1940)

Nunca contraindo matrimónio, nem tendo filhos, foi vivendo de hotel em hotel, até ao momento em que este jornal faliu, e recebeu o apoio do futebolista Paulo Roberto Falcão, que lhe cedeu um quarto. A cidade de Porto Alegre seria, assim, a única a conhecer Quintana na qualidade de residente. O conceituado hotel Majestic, onde viveu mais de uma década, após ser demolido, passou, em 1983, à designação e função de Casa de Cultura Mario Quintana, nome sem acento conforme havia sido registado à nascença.

O seu percurso na literatura seria razão para que fosse saudado na Academia Brasileira de Letras, por nomes conceituados como Manuel Bandeira e Augusto Meyer; sendo motivo de prémios, como o Fernando Chinaglia, concedido pela União Brasileira de Escritores, em 1966, e o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1980, para além do Prémio Jabuti, respeitante a Personalidade Literária do Ano, em 1981. No entanto, é curioso nunca ter sido eleito para esta academia, mesmo após tentar o ingresso nesta por três vezes, não conseguindo os votos suficientes. No rescaldo da mencionada saudação, recusou candidatar-se por uma quarta ocasião, alegando a politização da instituição como razão.

A sua poesia não descarta toda a bagagem jornalística, que se transformou em elementos empíricos substanciais para a criação da personalidade lírica. A essa capacidade sintetizadora, complementou com traçados de um humor mordaz e satírico. Este seria o seu único vício, ao contrário dos seus companheiros nas lides líricas, que se aventurariam no álcool, nas drogas ou no jogo. Entre métricas e estruturas mais ou menos definidas, deambulando entre o verso livre e os sonetos, as incursões assumem o rumo do início e do fim, da infância e da morte, intercruzadas com os ventos, os mares e os demais lugares de referência do seu íntimo.

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Antologia Poética” (1966)

O amor, a natureza e o tempo subjacente ao decorrer e ao experienciar destas dimensões foram as suas predileções temáticas, intimamente ligadas ao comover do coração. Este percurso desembocava num ser e fazer poético, que era, de igual forma, questionado e desconstruído. A oralidade e a memória eram recorrentes, suavizando e informalizando a toada linguística, complementada por um recurso à imagem e à impressão sensorial. Tudo isto num registo que, imbuído da simplicidade já referida, e de uma simbologia muito identitativa, não se descarateriza na introspeção efetivada, fluindo numa profundidade descritiva e pungente, à boa maneira canarinha.

Mario Quintana, de um doce romantista a um mistério marginal. Tudo por se desenquadrar de paradigmas de análise e de correntes literárias, que normalmente formatam o entender e o estudar da obra de um autor. Transcendendo a esses padrões, a ingenuidade social da sua poesia – embora intercalada com a irreverência transgressiva do desejo de arriscar – também não ajuda num entender histórico, embora se transponha na vertente sentimental e lírica da sua mundividência. Alheio a sistemas e a formatações, como uma criança na flor da sua espontaneidade, a marginalidade permanece e prevalece, embora fale alto de uma ternura popular e de uma vida singular de um poeta que se fez no sentir, no viver e no amar.

Fonte:Comunidadeculturaearte


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Equipe Tête-à-Tête