“Descontando os começos pseudo-idealistas, a grande tradição do romance brasileiro é o realismo. Exemplos contrários, por mais importantes que sejam individualmente, não chegam a constituir outra tradição, contrária. Machado de Assis também é exceção. Mas é realmente exceção? Tão enraizado está o realismo na literatura que até os supostos não realistas são realistas: é o realismo psicológico.

Mas é um realismo psicológico muito especial. É mais outra tradição constante da literatura brasileira — chave da maneira de que Cyro dos Anjos pode ser chamado machadiano. Esse realismo não é — assim como antigamente se dizia sobre Balzac em relação a Zola — um naturalismo tímido e incompleto. É maneira realista de contemplar, apreciar e julgar a vida. Uma ironia sarcástica da qual só é um passo para a sátira.

Cyro dos Anjos é escritor à maneira machadiana. Não acusa nem conclui, sobretudo não conclui. Sabe, como Flaubert, que ‘imbecilidade é querer concluir’; e o maior inimigo de Cyro dos Anjos não o poderia tachar de imbecil. Na sua inteligência reside o motivo que o impede de concluir: as conclusões voltar-se-iam contra ele próprio. Prefere a autoironia que desarma. Essa ironia é comparação entre o que foi, o que é e o que poderia ser. Não é por acaso que me ocorreu um verso de Manuel Bandeira. Mas aquela poesia irônica e autoirônica não é da Poesia com maiúscula. Quase ao contrário: significa a derrota da Poesia pela realidade.”

— Otto Maria Carpeaux (adaptado)

Fonte:ottocarpeaux.medium


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Equipe Tête-à-Tête