Thomas Mann foi dos escritores que mais bem retratou a mudança de paradigmas do século XIX para o século XX, agregando e pondo em confronto nas suas obras ideologias, filosofias e correntes de pensamento díspares mas complementares entre si. ‘Montanha Mágica’ e ‘Morte em Veneza’ são, não só, expoentes máximos disso mesmo (das correntes que marcaram a actualidade de então), como constituem, também, uma grande viagem pela montanha russa que é o ser-humano. Viagem, essa, que será sempre universal e atemporal. Este ano, a editora ‘Relógio D’Água’ dedicou-se a reeditar algumas das obras mais significativas do autor alemão. Como tal, vamos revisitar alguns aspectos da sua vida enquanto relembramos, justamente, o quão importantes ‘Montanha Mágica’ e ‘Morte em Veneza’ são para o entendimento do início do séc. XX, como também perceber porque são fundamentais, principalmente ‘Montanha Mágica’, para a nossa contemporaneidade. 

As origens de Thomas Mann e o confronto de ideologias na viragem do século XIX para o século XX

Paul Thomas Mann, assim era o seu nome, nasceu em 1875 na então Cidade Livre de Lübeck, estado autónomo do ainda Império Alemão (formado em 1871) que, actualmente, corresponde ao estado federal Eslésvico-Holsácia. Só este facto é indicador de que o escritor, o que mais bem soube retratar o tempo e a influência que este augura na psique humana, nasceu numa altura de grande transformação geopolítica e social da nossa modernidade – a viragem do século XIX para o século XX. Nietzsche (que vai ser importante para este artigo) morreria em 1900, no mesmo ano do português Eça de Queirós, deixando o caminho em aberto para a sua filosofia revolucionar o pensamento europeu no início do século passado. Por conseguinte, a psicologia, o nascimento da psicanálise de Freud (não obstante as mudanças que teve no decorrer dos tempos), e o próprio desenvolvimento da biologia, medicina e ciência, proporcionaram um grande desenvolvimento sobre o entendimento do ser-humano, tanto a nível biológico como do ponto de vista psíquico e humanístico. 

Se a defesa do heliocentrismo, por Copérnico, do inconsciente, por Freud, e a teoria da evolução das espécies, por Darwin, feriram e desconstruíram a ideia de que o ser-humano se encontrava no centro de todas as coisas, a essas descobertas poderíamos juntar a teoria da relatividade restrita, de Einstein, dada a conhecer através dos seus trabalhos publicados em 1905, e a teoria da relatividade geral, formulada definitivamente em 1915, que modificariam, para sempre, a nossa concepção do tempo. Se, até então, as leis de Newton eram vistas como invioláveis, em que o tempo era uniforme para todo o espaço, não havendo, por isso, união entre os dois conceitos, por sua vez Einstein provou  o contrário, tempo e espaço influenciam-se (o tempo não é absoluto para todo o espaço) fazendo com que o tempo, por si só, passasse a ser relativo e vivido pelo ser-humano de forma mais singular. 

Numa pré-altura à primeira guerra mundial, em que os nacionalismos das grandes potências e impérios europeus se exacerbavam (principalmente no então império alemão e austro-húngaro), situação que estouraria nos Balcãs; irrompia, também, paralelamente, uma via humanista provinda do iluminismo, crente na ciência, progresso e razão, isto em plena altura de uma segunda revolução industrial e, também, artística com o início do florescimento das novas vanguardas, nas quais se incluía o expressionismo. Temos, então, aqui, toda uma panóplia de novas considerações que obrigou o ser-humano a repensar-se, quer científica, humana e artisticamente. Todas estas considerações que assistiram ao início e ao fim de duas guerras mundiais levariam, igualmente, o próprio autor, Thomas Mann, a reconsiderar-se, como veremos.

No que diz respeito à Alemanha, já Nietzsche havia experimentado os dissabores  de um nacionalismo que teve, a nível artístico, expoente, na altura, no romantismo de Wagner. Apesar das acusações das quais o filósofo foi alvo e da tentativa de se aliarem os seus preceitos ao regime nazi, é preciso ver, primeiro, que o nacionalismo e a exacerbação da suposta pureza da ‘raça’ alemã têm raízes mais antigas a Hitler e, por isso mesmo, é fácil percebermos qual foi a postura do filósofo face a esse nacionalismo ou exacerbação da Alemanha enquanto vivo. Em primeiro lugar, foi o próprio Nietzsche que pôs em cheque a sua grande amizade com Wagner e, apesar do grande custo pessoal que tal causou, essa amizade jamais seria retomada. Em segundo, o próprio, apesar de grande escolástico, professor e filólogo, sempre se demarcou da elite intelectual alemã de então que se identificava com os valores vigentes da altura. Em terceiro, foi a sua própria irmã, nacionalista e afecta, posteriormente, ao regime nazi por via do seu marido, que organizou, retocou e modelou o seu próprio trabalho. Por isso mesmo ainda há, actualmente, uma grande discussão sobre se termos como ‘super-homem’ e ‘vontade de poder’ foram, de facto, bem traduzidos dos seus conceitos originais. Por último, Nietzsche não era adepto nem afecto às grandes massas. Um regime totalitário, independentemente do que professe, apoia-se sempre nas massas e vive da sua manipulação propagandista, por isso é difícil imaginar o filósofo alinhar com esse tipo de condutas. 

Foram estas as linhas ideológicas que marcaram a contemporaneidade de Thomas Mann e que se repercutiram, como veremos, nas obras “Montanha Mágica” e “Morte em Veneza”, como também nas suas tomadas de posição a nível pessoal.  O escritor nasceu no seio de uma família tradicional burguesa de comerciantes, filho do senador e comerciante Johann Heinrich Mann e de Júlia da Silva Bruhns, de ascendência alemã e brasileira. Júlia nasceu nas proximidades de Paraty, no estado de Rio de Janeiro. O seu pai foi um comerciante alemão e a sua mãe, Maria da Silva, era de origem indígena e portuguesa. Júlia só iria para Lübeck, após uma primeira infância passada no Brasil, porque Maria, sua mãe, faleceu durante o parto da sua última gravidez. Este é um facto que tem gerado curiosidade porque, independentemente da mãe de Thomas Mann ter saído do Brasil ainda criança, o choque com a cultura germânica nunca foi superado. O seu desejo de vida, reforçado após ter passado toda a sua juventude num colégio interno em que viu a sua liberdade circunscrita ao limite, sem poder concretizar nenhum dos seus verdadeiros intentos, seria para sempre visto pela alta-sociedade tradicional, puritana e conservadora como ‘mais um traço exótico seu, de uma mestiça vinda de um país curioso do hemisfério sul.’ Mais tarde, no livro autobiográfico “Aus Dodos Kindheit” [Da Infância de Dodô], descreveria como foi a sua infância idílica passada em terras brasileiras. Por si só, a mãe de Thomas Mann teve uma personalidade muito sui generis, uma vez que se revelou incansável na promoção de vários saraus literários, musicais e teatrais, mantendo a casa sempre movimentada com grande fluxo de artistas e intelectuais.

As origens latinas foram abordadas e confirmadas pelo próprio Thomas Mann numa entrevista cedida a Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico Buarque), a Dezembro de 1929, para o periódico ‘O Jornal’. A Sérgio Buarque explicaria o seguinte, quando o historiador o confrontou com o facto da sua obra não ter grandes vestígios da cultura latina,

“Penso ao contrário. Não sei se porque me habituei a descobrir certa semelhança vaga entre sua fisionomia e a de Anatole France. De qualquer modo acho essencial para a compreensão de nossas obras tão diversas o conhecimento dessa origem brasileira. A curiosidade pelo Brasil e pelos assuntos brasileiros fará com que um dia próximo visite o vosso país, onde desejo reviver as impressões de infância de minha mãe. É uma velha aspiração que penso realizar o mais brevemente possível. Dou grande significação aos traços que deixou em minha obra a origem brasileira de minha família materna e, ainda há pouco, comprometi-me com a revista ‘Duco’, órgão de aproximação teuto-brasileira, a escrever um artigo a respeito. Infelizmente terei de adiar por alguns dias esse compromisso, até que encontre o necessário repouso do espírito”

Já numa carta à mecenas americana Agnes E. Meyer, de 1939, descreveria assim a sua mãe,  denotando o quão importante foi e o peso que teve para o seu próprio entendimento da música,

Minha herança paterna e materna divide-se exatamente segundo o modelo goetheano: do pai a “estatura”, ao menos uma dose disso, e “o jeito sisudo de ser”; da “mãezinha”, tudo que G. [Goethe] resume simbolicamente nas palavras “alegria, candura” e a “vontade de histórias tecer”, o que nela assumia formas bem diferentes, é claro. Sua natureza pré-artística e sensível expressava-se na musicalidade, em seu piano tocado com bom gosto e com a aptidão proporcionada por uma formação burguesa consistente, e em sua refinada arte de cantar, à qual devo meu bom conhecimento da canção alemã. Ela foi levada a Lübeck ainda em tenra idade, e enquanto durou lá sua lida com as obrigações da casa comportou-se como uma boa filha da cidade e de seus extratos sociais mais elevados; uma corrente interior de propensão ao “Sul”, à arte e à boemia, no entanto, jamais deixaram de estar claramente presentes.

Thomas Mann não foi o único escritor da família. Aliás, compartilharia a profissão com o seu irmão e rival a nível ideológico, Heinrich Mann. É necessário fazer uma ressalva muito importante, enquanto que Heinrich representava a visão humanista da liberdade e da progressão da época, mais voltado para a então noção de zivilization, Thomas defenderia, num primeiro momento, acerrimamente o nacionalismo alemão e a sua noção de Kultur. Apesar do afirmado acima acerca das origens latinas da sua mãe, Thomas sempre se considerou como pertencente à alta burguesia alemã e foi defensor dessa mesma burguesia e da sua cultura, que constituía uma grande parcela dos seus leitores. Ideologicamente manteve-se ao lado de Kaiser Guilherme II, o último imperador Alemão e Rei da Prússia e, aquando da primeira guerra mundial, ao contrário do seu irmão que sempre foi crítico, desde o primeiro momento, das tomadas de posição da Alemanha, o autor de ‘A Montanha Mágica’, pelo contrário, defenderia a participação do seu país na Grande Guerra de 1914.

As relações com o seu irmão, que chegaram mesmo a ser cortadas, só retomaram em 1922 e, para tal, muito contribuiu a sua posterior defesa da República de Weimar, resultante das sanções da Alemanha no pós-guerra. Para essa viragem haveria de contribuir o repúdio do escritor ao assassinato do Ministro dos Negócios Estrangeiros,  o judeu liberal Walther Rathenau, vitimado pela facção antissemita. Seria, essencialmente, a violência política que levaria Thomas Mann a demarcar-se das suas posições prévias e são várias as suas intervenções criticas ao nazismo, ainda antes da instauração do III Reich . Em 1930, o escritor efectuou um discurso em Berlim em que apelava à burguesia e demais facções alemãs, a sua demarcação do discurso nazi que começava a pulsar. Como consequência, o autor teve de abandonar o recinto, de forma repentina, pelas portas dos fundos. Em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder, o escritor partiu para a Suíça (Küsnacht, perto de Zurique). Três anos depois, em 1936, Thomas Mann perdeu a sua cidadania alemã e permaneceu em exílio, em terras helvéticas, até 1938. Nesse mesmo ano decidiu rumar até aos Estados Unidos, mas o mccarthismo, período dos anos 50 marcado por uma forte perseguição a vários intelectuais e artistas (com bastante predominância em intelectuais emigrantes) sob acusação de comunismo, levou Thomas Mann, apesar de já ter na altura a cidadania estado-unidense, a regressar à Suíça, em 1952, onde morreu três anos depois, em 1955.

Numa época a fervilhar, tanto intelectualmente como a  nível geopolítico, o próprio Thomas Mann não ficou imune a essas transformações, até porque as viveu, como já vimos, não só nos seus livros, como nas suas tomadas de posição a nível ideológico, em nome próprio. O interessante e curioso, é que independentemente das suas convicções antes e durante a Primeira Guerra Mundial (que depois mudaram), o próprio não deixou de colocar as várias ideologias e correntes da época nos seus livros, fazendo com que, de uma forma cabal para ambos os lados, todas as posições entrassem em confronto entre si. Por essa razão é que ‘A Montanha Mágica’ e ‘Morte em Veneza’ são livros ímpares que, sem serem datados pela sua grande geografia humana, podem ser divididos ou entendidos através de várias dicotomias chave – isto porque tudo é passível de ser confrontado. Talvez pensássemos que noções como Zivilization  e Kultur, tal como a antítese que os dois pólos representam, como se vê em ‘Montanha Mágica’, estivessem já, totalmente, ultrapassados mas, infelizmente, ainda não – muito também por conta da forma como a discussão é orientada no livro. Já em ‘Morte em Veneza’, o escritor recupera a ‘Origem da Tragédia’, de Nietzsche, e a sua consequente divisão das artes em apolíneas e dionisíacas, como a consequente procura do belo artístico.


O confronto intemporal entre a vida, a morte  e o tempo em ‘A Montanha Mágica’

‘Montanha Mágica’ – que retrata a estada do jovem alemão Hans Castorp no sanatório ‘Berghof’ , em Davos-Platz, no cantão de Grisões, Suíça – partiu de um episódio particular da vida do escritor. A esposa de Thomas Mann, Katharina Hedwig Mann [Katia], contraiu, em 1912,  uma doença pulmonar e esteve, igualmente, internada num sanatório dos Alpes Suíços durante meio ano. O próprio Thomas Mann permaneceu nesse mesmo sanatório como companhia, uma visita de [Katia]. O pretendido era ficar, apenas, durante três semanas, mas esse tempo, gerando-se aqui uma similitude com o que acontece no livro com o próprio Hans Castorp, prolongou-se devido à descoberta de “catarro nas vias respiratórias superiores”. Um ano após, em 1913, já depois da publicação de ‘Morte em Veneza’ (1912), Mann iniciou a redacção de ‘Montanha Mágica’, romance importante para a sua conquista do Nobel da Literatura, em 1929.

O pretendido era escrever uma novela que servisse de contraponto a ‘Morte em Veneza’, cujo intento era retratar uma existência banal que se confrontasse e perdesse nela própria, voltando aos tópicos do amor e da doença. Porém, entre 1913 e 1924, o ano da publicação do livro, vão 11 anos de diferença. Onze anos, esses, que assistiram à Grande Guerra (daí a interrupção) e, da mesma forma que o jovem Hans Castorp já não era o mesmo no final do livro, muito pelo seu confronto com a realidade das profundezas do ser-humano, o próprio Thomas Mann, em 1924, era já outro também – num primeiro momento defendendo o pendor autoritário e conservador e, em 1924, já reconciliado com o seu irmão e procurando defender o pólo oposto. Já aqui vemos a importância do tempo que extrapola do campo literário para o campo real. Tal é notório nos anos que o livro demorou a ser escrito – o que era para ser uma novela culminou em 1000 densas páginas no original – na própria mudança a nível ideológico do escritor e as próprias incertezas a nível temporal que uma guerra sempre acarreta. Sem esquecer, claro, o próprio facto de Thomas Mann, também ele, ter ficado mais tempo do que o previsto num sanatório – entrou com um intento, saiu com outro. Parece que está sempre presente, aqui, o factor da traição do tempo, ou o facto deste não se apresentar com as suas verdadeiras intenções. Isto, porque tudo demora sempre mais do que o esperado e os objectivos iniciais são sempre traídos por outros no final.

‘Montanha Mágica’ é assim, antes de mais, um livro de confronto sobre o próprio tempo e sobre a reflexão dos  tempos vividos. No centro encontra-se Hans Castorp, um jovem bastante comum e mediano da alta burguesia, que visita o seu primo no sanatório ‘Berghof  e que procura, também, refortalecer-se de uma possível anemia. Na língua alemã, não poderia haver nome mais simples e normal do que Hans, e assim é o rapaz, ainda em descoberta própria, sem nenhuma característica demasiado vincada. É interessante como no início somos logo advertidos que nem é pelo próprio que nos vamos debruçar pela sua vida, senão pela própria narrativa em si, “Queremos narrar a vida de Hans Castorp não por ele -, a quem o leitor em breve o conhecerá como um rapaz simples, ainda que simpático -, mas por amor a esta narrativa, que nos parece em alto grau digna de ser relatada.” Era sua intenção que a sua estada demorasse três semanas, mas a sua doença pulmonar, que se revelou durante essa mesma estada, fê-lo permanecer durante muito mais tempo, conduzindo-o numa viagem, tanto ao interior de si mesmo através do amor, como na reflexão de diferentes perspectivas que também o fizeram crescer. É também no prólogo que o escritor nos adverte, pela primeira vez, de que ler o livro é, antes de mais, uma experiência que se tem com o tempo, não sendo, por isso mesmo,  algo de rápida absorção.

Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans. Não lhe bastaram para isso os sete dias de uma semana, nem tão pouco sete meses. Melhor será que ele desista de computar o tempo que decorrerá sobre a terra , enquanto esta tarefa o mantiver enredado. De certo não chegará – Deus me livre – a sete anos!

O sanatório era um local de profusão das mais diversas culturas que, num primeiro momento, também entraram em choque com próprio jovem, mas a vida, para os utentes, não deixava, mesmo assim, de estabelecer um forte confronto com a vida já dista da planície, algo que nas suas bocas parecia já tão longe. ‘Bergohf’ dava, então, a impressão de uma outra realidade, uma realidade quiçá mais protegida, mas ensimesmada. Uma realidade de opostos entre noções a priori antagónicas como a pulsão do amor e da morte, personificada, essencialmente, por Hans e Clawdia Chauchat; entre a própria morte e a juventude que tem de estar preparada para a vida; e o facto de se estar em contacto com a dicotomia da força e da grande fragilidade humana, sem abstracção, 24 horas por dia. Neste ponto, torna-se impressionante como num momento actual de pandemia, de quarentena e de abrandamento geral do nosso estilo de via, voltamos a lidar com estes conceitos – como estarmos a sós connosco próprios e como lidar com a proximidade da doença e da morte, ao mesmo tempo que a vida, interiormente, fervilha.

Vida e morte, juventude e finitude, amor e repulsa, progresso e autoritarismo, medicina, ciência e fé, razão e religião – são estas as principais antíteses que compõem ‘Montanha Mágica’. Além da lógica questão da vida e da morte, o grande caldeirão cultural do próprio sanatório provoca a estranheza que opõe amor à repulsa. Isso é notório na relação entre o par Hans e a russa Clawdia que se traduz na transgressão da vida ordeira de Hans. Clawdia era caótica, ostentava uma postura totalmente à vontade e despreocupada, batia com portas sem cautela e receio de fazer estrondo; Hans era o oposto e, no início, a sua amada o desconcertava. Este lado da relação, a par da discussão intelectual do livro e que já vamos ver, pauta-se, também, pela ordem e o seu desejo de ser desconstruída e corrompida por uma atitude mais libertária – uma espécie de contraposição da própria noção de zivilization e kultur no próprio amor.

Torna-se interessante, uma vez que a narrativa se passa num sanatório às portas da Grande Guerra (culmina já com o início da mesma), observar como as inovações da ciência e da medicina são incluídas. Estávamos, então, na época em que o raio-x se começava a popularizar e as pessoas começavam a ver, literalmente, o seu esqueleto e como eram por dentro. Foi uma autêntica revolução, com um impacto tremendo a nível de diagnóstico que mexeu com a toda a medicina. Assistimos, portanto, ao primeiro raio-x de Hans Castorp, à sua própria admiração de ver como o seu tórax era por dentro e, como a partir daquele momento, teria uma fotografia do seu interior para mostrar aos seus netos no futuro. Toda esta experiência, importância e admiração, mexiam igualmente com a concepção de se ser humano. Na verdade, face aos novos desenvolvimentos da altura, era um novo olhar para nós próprios que influía, também, nas concepções de pendor mais humanista.

Este confronto directo tinha expressão, não só nas conversas do humanista e progressista Settembrini com o jovem Hans Castorp – tal como um mentor confronta e incentiva intelectualmente o seu pupilo – como, também, no confronto entre o próprio Settembrini e Naphta. Settembrini era o humanista, a Zivilization, crente no humano, no progresso, na ciência, no liberal e no democrático. Naphta era o seu oposto, representante da religião, do autoritarismo, da desconfiança face às inovações. Em longas discussões, ambos discorriam argumentos num mundo em mudança sobre o progresso, nas suas consequências, nas suas vantagens e sobre o papel do ser-humano. Relembrando a própria teoria heliocêntrica de Copérnico, à qual se faz menção, foi bom ou mau a ciência ter reduzido a importância do ser-humano ao destituí-lo do centro do universo?Mas, e já aqui relembrando que Nietzsche havia dito que “Deus está morto e nós o matamos”, como é que uma espécie, que se pensa a sós no nível de racionalismo e consciência que conseguiu , se vê a abraços com o abandono do seu suposto ‘pai’ que espiritualmente tinha a função de colmatar essa mesma solidão crónica humana? No centro da destituição da importância do humano, não estaremos, ao inverso, a aumentar a sua importância e fazê-lo passar por Deus? E isso leva-nos à evolução ou destruição? E seremos capazes de cumprir as nossas obrigações perante as criações consequentes do progresso, tal como a questão que se coloca no livro ‘Frankenstein’ de Mary Shelley? No fundo, Settembrini e Naphta é como se fossem um só Thomas Mann em discussão consigo próprio, tentando corroborar-se e contra-argumentar-se ao mesmo tempo, numa dualidade que, independentemente da época, nunca passou por completo.

É fácil olharmos para estas dicotomias – a modernidade, progresso, ciência, espírito e religião – e vê-las como ultrapassadas. Por um lado, até podem estar porque desconhecem, ainda, e não sabem até que ponto a barbárie humana pode ir se forem defendidas e levadas ao seu extremo. Mas não deixa de ser o homem em crise existencial, a pensar nele próprio e no seu lugar, quando as bases em que acreditava estavam a ser destruídas. E eis-nos de novo nesse mesmo lugar de viragem, em que a discussão entre a ciência e o espiritual ainda não findou – discussões, essas, que mesmo nas ideologias de vanguarda ganham novos contornos e polarismos. Basta pensarmos que ainda se discute a importância de um sistema de vacinação para as crianças.

É fácil perceber o porquê. O homem não aprende, apenas, com a informação que retém. Aprender é uma coisa, fazer com que os ensinamentos se apreendam e façam parte das nossas acções é outra. Para essa informação ficar retida, há que fazer as mesmas perguntas nós mesmos e trazê-las para a nossa contemporaneidade, caso contrário as consequências ficam esquecidas porque passa a ser o homem a sós com as suas circunstâncias, e quando isso acontece, volta a repetir os mesmos erros do passado. Talvez as discussões dicotómicas de Settembrini e Naphta não saibam como integrar a barbárie humana e, em parte, actualmente, é isso que parecemos estar a esquecer. Mas é, justamente, esse não reconhecimento que fá-la voltar com toda a sua força.


‘Morte em Veneza’: o que é o belo?

Se ‘Montanha Mágica’ nos dá o confronto do homem consigo mesmo, enquanto se repensa espiritual, criativa e cientificamente – reflexões que, também, sempre nos acompanharam – ‘Morte em Veneza’ oferece-nos esse confronto pela arte. No romance de ‘Berghof’, a ordem e a sua contra-ordem era-nos oferecida pelas dicotomias Hans e Clawdia, Settembrini e Naphta, no humanismo e na religião, autoritarismo e liberdade. Já no romance publicado em 1912, Thomas Mann acaba por tocar em algumas dessas dicotomias através da divisão das artes em apolíneas e dionisíacas, que Nietzsche apresentou em a ‘Origem da Tragédia’ e que, ainda numa primeira fase do filósofo, ia beber influências à noção do ‘Véu de Maia’ de Schopenhauer. ‘A insustentável leveza do ser’, de Milan Kundera, acaba por resgatar, igualmente, além da noção de eterno-retorno, essa divisão artística pela personagem Franz e pela asserção, “a música é a mais dionisíaca das artes”. E o que significa, afinal, esta divisão entre ‘apolíneo’ e ‘dionisíaco’? Essencialmente e de forma básica, significa a diferença entre a ordem e o caos, a diferença entre uma estrutura racional lógica e uma sensitiva, entre a ordem e as transgressões.  As apolíneas, que tinham como base o deus grego da razão e da lógica, Apolo, faziam uso destas considerações para se alcançar a noção suprema do belo – um belo em harmonia, segundo as noções classicistas. Já as artes dionisíacas almejavam, através do sensitivo e da transgressão da ordem, romper com o véu de Maia (o símbolo que separa o ser-humano dos seus opostos e fragmentos) e alcançar, dessa forma, o entendimento da totalidade.

É preciso entender que Nietzsche – num primeiro momento muito ligado à filosofia de Schopenhauer, depois haveria de mudar o seu rumo – considerava Dionísio de uma forma bastante específica. Geralmente, associamos o Deus à devassidão, à desordem e ao hedonismo puro. O filósofo, por sua vez, pensou que se o Deus era a representação do caos, era também o Deus que aglutinava todos os opostos, uma vez que a ordem tende a uma visão discriminatória e fragmentária das coisas. Por esta via, Dionísio seria, também, o Deus da totalidade. As artes como a escrita, mais ligadas ao racionalismo e a uma estrutura pensada, seriam apolíneas. Já as artes como a música, que permitem através de uma escuta sensitiva (a audição é o sentido que mais augira uma ligação directa ao cérebro, mesmo quando estamos a dormir, e desperta em nós reacções mais repentinas) seriam as Dionisíacas. Basta pensarmos nas introspecções, emoções e ambiências que uma música desperta em nós.

A personagem principal de ‘Morte em Veneza’ é, assim, um escritor reconhecido pela sua estrutura ordeira e ímpar de escrita formal. O escriba é Gustav Aschenbach, ou Von Aschenbach, que ruma até Veneza. Na cidade italiana dos canais, depara-se com o jovem Tadzio, de origem polaca, que se encontra igualmente em Veneza, com a sua família, de férias. O rapaz representa a harmonia perfeita da beleza, a estrutura bem conseguida e proporcional. Fazendo, aqui, uma ponte com a noção apolínea e o próprio Platão, o escritor apaixona-se por Tadzio. Não vai ser uma uma paixão consumada ou que chegue a vias de facto, vai ser, antes, uma  paixão platónica que o escritor vai desenvolver por um ideal de beleza perfeito. O próprio Aschenbach vive dentro de si essa luta dual, entre a ordem transgredida e o caos, que culmina numa necessidade sensitiva de cuidar do seu próprio corpo e experimentar, ele mesmo, o belo que culmina, finalmente, na sua própria morte.

Um dos pontos mais importantes que o livro aborda é a questão estética e filosófica do belo, representada por Tadzio, e a questão moral inerente. O que vale a estética em arte? O que é o belo? Já percebemos que a concepção apolínea está a ligada a Platão e a própria paixão de Aschenbach é apenas platónica. Mas esse facto liga-se ou faz-nos reflectir na própria separação da obra de arte e a estética em si, e na modificação que essa percepção foi sofrendo ao longo da história da filosofia. E quando se fala na diferença entre a concepção artística e a concepção estética, falamos também na diferença entre a concepção estética e o conceito de ‘bom’ ou ‘bondade’. Não podemos perder de vista que o escritor vivia um dilema moral causado por todas estas concepções opostas – a bondade e o belo, o estético e o moral, o deleite dionisíaco e a formalidade estrutural apolínea. A estrutura estética chega para se alcançar a arte? A filosofia de Platão encarava a hipótese do belo ligada à hipótese da bondade. Kant, já no século XVIII, foi o primeiro a romper com essa ligação. Há imensas discussões que podem surgir através destes conceitos e que podem ser transpostos para a actualidade, em que começou, de novo, a surgir a questão da ligação da obra do artista à sua conduta. Há vários casos como Morrisey, por exemplo. Mais recentemente, muito se falou acerca de JK. Rowling. Se transpusermos isto para o domínio da comédia e Hollywood, muitos são os que estão debaixo do holofote pelas suas condutas ou tomadas de posição, independentes do seu trabalho expresso. Nos dias de hoje é algo que se torna mais acesso, uma vez que a polarização política está cada vez mais acentuada. O próprio Thomas Mann representa isso, também, pelas suas ideias iniciais.

Pedro Mexia, mesmo sem falar no caso específico de ‘Morte em Veneza”, fez uma boa síntese destas dinâmicas numa entrevista ao Público, do dia 11.  É a separação do artista enquanto pessoa e da sua obra real? Conseguimos estabelecer a diferença entre o bom e o belo? É tal desejável? Devemos abandonar a obra de um artista quando uma determinada ideia sua não nos agrada?

O que não é pacífico é a ligação, na nossa vida, entre o belo e o bom. Sendo essa ilusão falsa, temos que ter um bocadinho a ilusão de que o belo e o bom podem ser a mesma coisa. Empiricamente não me parece. Fui um crente nessa ideia durante muito tempo, hoje não acredito, mas é importante acreditar nisso, pelo menos durante um tempo, ou até certo ponto; saber que não é assim, mas fazer como se fosse, com algumas precauções. É uma ideia demasiado boa para a atirar fora.

Tendo em conta que ‘Montanha Mágica’ era para ser uma novela que estabelecesse uma ponte com ‘Morte em Veneza’, a verdade é que há vários factores em comum. Desde já, há uma ligação com a doença porque o escritor não deixou de referir um surto de cólera na cidade italiana, encoberto pelas autoridades, não obstante o risco. Não podemos esquecer o próprio confronto de ideologias que se traduzem na noção de ordem e sua transgressão – num livro através da arte, no outro através das vertentes filosóficas de então.  Estamos a falar de duas vidas ordeiras que foram transgredidas pela paixão, amor, doença, vida e morte. Por último, partindo os dois livros de dados biográficos do próprio Thomas Mann, e embora a homossexualidade, por si só, em ‘Morte em Veneza’, ser um aspecto secundário – o principal era o factor platónico – a verdade é que não podemos deixar de referir a própria homossexualidade do autor, subentendida ou expressa claramente nas suas obras. Não deixou, no entanto, de casar com Katharina, a sua mulher, e levar uma vida ao seu lado com seis filhos também ligados à cultura e às artes: Klaus Mann (escritor), Golo Mann (historiador, filósofo e escritor), Erika Mann (produtora de teatro, dramaturga, jornalista e actriz), Michael Mann (músico e professor de literatura alemã), Elisabeth Mann Borgese (especialista em leis e políticas marítimas) e Monika Mann (escritora).

Ao invés de sublimar a personalidade do autor, com as suas falhas e dualidades, a verdade é que os livros de Thomas Mann valem pelo confronto de ideologias, filosofias e variantes ideológicas – tudo se corrobora ou, pelo contrário, se combate a si mesmo. Neste aspecto, quase que faz relembrar Nietzsche e o seu pendor para combater toda e qualquer ideia. Quando explico que Thomas Mann não deve ser enaltecido é porque, por exemplo, várias outras personalidades, como o seu irmão, conseguiram antever muito mais cedo os perigos que aí viriam – embora Thomas mudasse a sua posição a tempo de nunca ter sido afecto ao nazismo. Mas essa discussão dual, que o próprio Thomas Mann viveu, é o que reflecte o pendor imortal destas obras. Uma discussão entre os mais variados conceitos que nunca abandonará, na verdade, o ser-humano enquanto este for humano. Nós somos criadores e aprendemos ao mesmo tempo. O conhecimento nunca ficará fechado e a descoberta ou redescoberta irá sempre acompanhar-nos  em todas as épocas. Isso irá sempre trazer conflito, um sentimento criativo de solidão muito próprio, uma redescoberta constante do que é o ser-humano e a sede de encontrarmos uma resposta, através de uma ou de outra ideologia, para o porquê de aqui estarmos.

O tempo, esse, fazendo aqui uma ligação que o próprio autor fez com a teoria de Einstein em ‘A Montanha Mágica’, irá sempre ser a ponte entre todas estas visões – o motor, o verdadeiro propulsor, que nos irá espicaçar, desassossegar  e fascinar ao mesmo tempo – desde os inícios dos inícios até ao final dos finais,

“Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo fazem passar o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente exacto. O vazio e monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos aborrecidos; porém as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, que são varridos pelo vento e voam.”

Créditos:AnaIsabelFernandes/comunidadeculturaearte


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête