Gustave Flaubert foi um dos mais importantes escritores franceses do século XIX. Nascido em 1821 no seio de uma família burguesa, cedo se consolidou como uma personalidade artística, ainda que problematicamente titubeante. Na sua adolescência apaixonou-se por Elisa Schlesinger, uma mulher onze anos mais velha e casada, facto que terá servido de trampolim emocional e imaginário para a criação da sua primeira obra, Memórias de um Louco, um magistral registo autobiográfico, onde o texto em forma de prosa se transcende através de um ritmo singularmente poético.

A obra, concluída quando Flaubert tinha apenas 17 anos, parece elaborada por um adulto consolidado, não só na medida em que é um regresso a um tempo que nos é enquadrado como longínquo, mas também pela escrita do autor se encontrar particularmente amadurecida para um jovem que, na altura, dava os primeiros passos na literatura. Mesmo tendo sido a primeira obra redigida pelo escritor nascido em Rouen, foi apenas publicada postumamente, no ano de 1901.

Durante a sua vida, Flaubert notabilizar-se-ia a partir da publicação do clássico Madame Bovary em 1856, obra de estilo realista que foi levada a tribunal sob a acusação de atentado ao pudor. Para além do polémico romance que relata a história de uma mulher adúltera e sonhadora, Flaubert foi igualmente o autor de uma das mais grandiosas obras literárias do século XIX, A educação sentimental publicada no ano de 1869. Apesar de ser igualmente de pendor realista, este foi um romance mais consensual e aclamado pela crítica, tendo sido particularmente admirado por autores como Émile Zola, Marcel Proust ou mais tarde, por Franz Kafka.

Em Memórias de um Louco, Flaubert materializou desde logo a sua capacidade em aprimorar o aspeto formal do texto prosaico. Ao longo das suas páginas, deparamo-nos com uma exacerbada componente emocional da figura central da obra, que é o próprio autor, louco em virtude, louco em distanciamento ideal de uma sociedade maculada pelo seu egoísmo e alienada pelas suas crenças que nada em concreto asseguram.

“O homem, grão de areia lançado ao infinito por uma mão desconhecida, pobre insecto de fracas patas que à beira de um abismo quer segurar-se em todos os ramos, que se agarra à virtude, ao amor, ao egoísmo, à ambição e que faz de tudo isso virtudes para se melhor preservar, que se aferra a Deus e que vai enfraquecendo sempre, solta as mãos e cai…”

De um ponto de vista psicológico, a obra acaba por ter dois ecossistemas distintos. Numa primeira fase, o autor relata uma adolescência comandada pelo sonho e pelo imaginário, onde sensações inauditas assolam a sua alma poética. Numa segunda fase predomina a crítica e o pessimismo relativamente à condição e à ação humana. A linha comum às duas frações psicológicas acaba por ser o saudosismo de um tempo de ingenuidade que não volta mais, um tempo de emoções virgens, uma adolescência de solidão que ansiava mais do que a volúpia da carne; a elevação de um sentimento nobre e puro. O do amor.

“Eis pois como eu era: sonhador – despreocupado, com o humor independente e trocista, construía um destino e sonhava com toda a poesia de uma existência plena de amor.”

Em Memórias de um Louco há ainda uma outra linha tangente aos diferentes momentos da narrativa: a da não correspondência entre a idade biológica do autor e a forma com que este concebe a vida. Ainda que se demore em espaços de luz, a leitura vai ao encontro de um homem gasto, deitado à sombra de um universo sem certezas, mas também sem ilusões.

“Jovem, era velho; o meu coração tinha rugas e, ao ver velhos ainda vivos, cheios de entusiasmo e de crenças, ria amargamente de mim próprio, tão jovem, tão desenganado da vida, do amor, da glória, de Deus, de tudo o que existe, de tudo o que pode existir.”

Para além de colocar em causa a moralidade do homem e, em certa medida, a vacuidade ontológica da fé em Deus, o autor critica igualmente a ciência por considerar o homem como um ser condicionado pelas suas limitações intelectuais. Ainda assim, o escárnio pela necessidade do ser humano em conhecer o mundo encontra-se bem mais presente em Bouvard e Pécuchet (1881). De resto, nesse romance, o desprezo por quem padece pelo anseio de tudo conhecer, acaba por configurar a própria narrativa. Já em Memórias de um Louco, encontramos apenas algumas passagens daquilo que viria a ser, mais tarde, uma das bandeiras do pensamento crítico de Flaubert:

“Homem que quer compreender o que não é e fazer uma ciência do nada; homem, alma feita à imagem de Deus e cujo génio sublime se detém perante um rebento de erva e não é capaz de resolver o problema de um grão de pó!”

De resto o cepticismo, o niilismo em relação a várias estruturas, bem como a revolta para com uma sociedade cruel, segregadora e debilmente edificada a partir de ideias no mínimo questionáveis, são não apenas o resultado do pensamento de um espírito que se encontrava à frente do seu tempo, mas também da negativa relação do autor com uma alteridade opressiva, quando era ainda criança.

“Fui agredido em todos os meus gostos: na aula, pelas minhas ideias; nos recreios, pelo meu pendor para a selvajaria solitária. Desde então, sou um louco.”

Mais do que as suas ideias divergentes relativamente às estruturas que toldavam a maioria dos homens da sua época, a obra precoce de Flaubert ganha um contorno singular a partir das muitas passagens de lírica febril que a revestem. Seja a partir do enquadramento das suas viagens imaginárias a territórios longínquos, seja a partir da descrição do amor platónico por Elisa Schlesinger, no livro chamada Maria, há toda uma ebulição emocional ligada ao passado que contrasta com a amargura do tempo em que o texto é desenvolvido.

“…sonhava viagens longínquas às terras do Sul; via o Oriente e as suas areias imensas, os seus palácios a que acorriam camelos com os seus guizos de latão; via as éguas pulando em direcção ao horizonte avermelhado pelo sol; via vagas azuis, um céu puro, uma areia de prata; sentia o perfume destes oceanos mornos do Meridião; e depois, perto de mim, sob uma tenda, à sombra de um aloés de folhas largas, uma mulher de pele morena, olhar ardente, que me rodeasse com os seus braços e me falasse a língua das huris.”

Ainda que a primeira obra literária de Flaubert tenha ficado bastante aquém da notabilidade de Madame Bovary ou até mesmo de A educação sentimental – muito por culpa de apenas ter sido publicada a título póstumo, mas também pelo vanguardismo desses romances que de certo modo a relegaram para um plano não tão nuclear – Memórias de um Louco assume-se como um registo autobiográfico ímpar, pejado de uma mestria formal especialmente precoce, bem como de um pensamento que incide luz sobre camadas de pó paradigmáticas.

Texto de Augusto António Cabrita/comundadeculturaearte


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Equipe Tête-à-Tête