Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma…

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.


Soneto de contrição, escrito em 1938, é um dos poucos que se dirige efetivamente a alguém identificado: uma amada chamada Maria. Além do nome, mais nada saberemos a respeito da jovem por quem o eu-lírico nutre tanto afeto.

No princípio do poema, os versos comparam o amor sentido com a dor provocada por uma doença ou com a sensação de solidão presente numa criança que vagueia sozinha.

No entanto, apesar das comparações iniciais sugerirem sofrimento, logo o eu-lírico dá a volta e mostra que o afeto provocado pela amada é divino e proporciona uma calma e um descanso jamais sentidos.

Vinícius de Moraes (1913-1980)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête