Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.


O poema composto em 1933 conta a trágica história de um casal que se desfaz. O título do poema é uma dedicatória direcionada a alguém que desconhecemos (lê-se apenas A uma mulher). Ao longo dos onze versos ficamos conhecendo o destino de um casal que, no passado, foi apaixonado, mas que agora parece se separar definitivamente.

Quando o eu-lírico se aproxima da amada ela já está fria e distante. Ele ainda tenta transmitir um carinho, um afago, mas logo percebe que qualquer investida será em vão. A finitude já está instaurada no corpo dela e a cena já transborda sofrimento.

Ao avesso dos poemas românticos e apaixonados habitualmente escritos pelo poetinha, em A uma mulher temos uma escrita sem final feliz.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête