De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


O triste e belo Soneto de separação aborda um dos momentos mais trágicos da vida do ser humano: o final de uma relação amorosa. Não sabemos o motivo da despedida, mas o eu-lírico transcreve nos versos acima a agonia da partida.

Em termos de estrutura, o poema é todo construído a partir de pares opostos (riso/pranto, calma/vento, momento imóvel/drama, próximo/distante).

Nos breves versos podemos sentir a fugacidade dos sentimentos e a perenidade da vida. Parece que, num piscar de olhos, toda a relação está definitivamente perdida. É como se a vida e o afeto cultivados a dois se esvaíssem num segundo.

Vinícius de Moraes (1913-1980)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête