Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.


Os versos dedicados ao amor compostos por Vinicius de Moraes começam tecendo uma comparação da amada com o universo náutico. A presença de um léxico ligado à navegação – as docas, o cais, os naufrágios, os navios, os saveiros – vem a serviço do enaltecimento da mulher amada. Nessa homenagem o poetinha exalta especialmente os olhos daquela que é o objeto da sua adoração.

Num segundo momento da poesia, vemos surgir a questão da presença ou não de Deus como o construtor dessa obra prima (os olhos da amada). O eu-lírico coloca a hipótese de, se Deus existir, ter sido o autor dessa mais bela criação. No caso de não existir, o elogio vai por outro caminho e encontra no olhar da amada um somatório de gerações.

Por fim, ficamos sabendo que a amada, que não acredita na existência de Deus, desperta no poeta o amor e a esperança. Se tudo o que vem do olhar dela é grande e belo, o eu-lírico descreve o seu próprio olhar, por oposição, como um olhar mendigo.

Vinícius de Moraes (1913-1980)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête