Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Inserido no livro Vaga Música (1942), o poema parte de uma experiência profundamente biográfica. Trata-se de um poema autocentrado: que fala das dores, das angústias e dos medos do eu-lírico.

No eu-lírico, que fez um mergulho dentro de si mesmo, lemos a esperança de que uma fotografia possa retrata-lo, identifica-lo, ajuda-lo a mapear o seu eu interior e exterior.

O poema Encomenda tem um tom sombrio, de amargura, apesar do eu-lírico aceitar e acatar a passagem do tempo (“Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria.”)

Na última estrofe, observamos que, por mais que a passagem do tempo seja dura, o eu-lírico não pretende disfarçar o sofrimento nem as mágoas, e deseja assumir a sua solidão assim como assume as suas próprias rugas.

Cecília Meireles (1901-1964)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête