A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Publicado no livro Vaga Música (1942), o poema Reinvenção conta com vinte e seis versos com rimas alternadas em três estrofes. O refrão não possui rimas e é repetido três vezes (no princípio, no meio e no final do poema), reforçando a ideia que deseja transmitir.

Os versos apontam para a necessidade de se olhar ao redor a partir de uma nova perspectiva, experimentando a vida de uma maneira diferente, redescobrindo a cor do cotidiano.

Do ponto de vista negativo, a solidão, uma característica da lírica de Cecília, também aparece ao longo do poema (“Não te encontro, não te alcanço…”). Por outro lado, consciente das dores da vida, o eu-lírico do poema o encerra com um tom de esperança, apontando uma possibilidade de saída solar.

Cecília Meireles – (1901-1964)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête