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Sobre a felicidade

A predação (o sacrifício dos outros em prol do alegado próprio benefício) não é de interesse maior para nós que o altruísmo. A felicidade, assim como tudo no mundo, é algo específico; tem uma natureza.  A felicidade é o estado mental que se segue da busca bem-sucedida por valores racionais promotores da vida.

A felicidade genuína advém da realização de valores, não do roubo; de pensar racionalmente e ser produtivo, não da renúncia da própria mente e de transformação subsequente em um parasita do pensamento e do esforço dos outros; da conquista romântica e de fazer amor apaixonadamente, não do estupro de pessoas.

Transformar-se intencionalmente em um parasita das mentes, dos esforços e dos corpos de outras pessoas – reduzir-se deliberadamente ao estado de uma criatura sub-humana – é a coisa mais abnegada que uma pessoa pode fazer. Tais predadores escolheram ignorar ou negar esse fato, mas isso não os liberta dele.

Assim como o Sol não gira ao redor da Terra, igualmente, uma pessoa não pode realizar a felicidade sacrificando outras pessoas.

As alegações dos predadores ao efeito de que eles conseguem realizar a felicidade sacrificando outras pessoas são apenas isso: alegações. Elas não são baseadas em evidências, pois o sorriso temporário e o dinheiro roubado de um criminoso não são evidências da sua felicidade.

Além do mais, tais alegações contradizem flagrantemente o fato demonstrável de que o pensamento racional e a realização produtiva; a autoestima genuína (merecida) e a certeza do próprio valor moral são requerimentos para a felicidade.

Entretanto, em última análise, em uma sociedade racional, as evasões e as alegações dos predadores são de pouca preocupação às pessoas boas. Como indicarei na seção sobre política, uma sociedade racional tem meios eficientes para lidar com tais criaturas de forma adequada.


Sobre o hedonismo

Só por que alguém obtém prazer fazendo alguma coisa ou sente vontade de fazê-la não significa que isso seja do seu maior interesse. É por esse motivo que pais racionais encorajam seus filhos a pensar antes de agir e a reconhecer que escolhas têm consequências além do momento imediato. Assim como, de aprender e a abraçar os requerimentos verdadeiros e de longo prazo da vida e da felicidade humanas.

É também por esse motivo que adultos racionais não agem de acordo com qualquer impulso ou desejo, e por que vagabundos e viciados em drogas não são pessoas felizes.

A felicidade genuína vem da identificação e da busca dos requerimentos materiais e espirituais abrangentes da nossa vida, definidos pela nossa natureza.

Enquanto o egoísmo fornece um sistema inteiro de explicações e princípios racionais, o hedonismo diz: não preste atenção na sua natureza ou necessidades; faça aquilo que lhe der prazer. O hedonismo, em outras palavras, sob o disfarce do auto interesse, aconselha a autodestruição.

Tudo se resume aos padrões. O padrão de valor de acordo com o altruísmo é o auto sacrifício; de acordo com o predador é o seu capricho. Ou com o hedonista é o prazer ou os sentimentos. E o padrão de valor de acordo com o objetivismo e o egoísmo racional são os requerimentos da vida humana.

Pelo padrão da vida humana, cada indivíduo deve viver sua própria vida para o seu próprio bem. Ele deve pensar racionalmente e perseguir os objetivos que promovem sua própria vida, tais como: uma carreira maravilhosa; um relacionamento romântico apaixonado; e atividades recreativas apreciáveis, o que inclui todas as formas de arte.


A NATUREZA E O VALOR DA ARTE

O objetivismo defende que a arte é um requerimento da vida e da felicidade humanas. A arte é uma recriação seletiva da realidade de acordo com as convicções mais fundamentais, mais profundas, de um artista. Tal como a sua visão da natureza e do universo, da natureza do ser humano, do que é cognoscível, do que é mais importante e do que é possível.

O propósito da arte é dar forma física a tais abstrações profundas, torná-las concretas e observáveis e, desse modo, fornecer às pessoas uma representação perceptual de uma ideia particular ou visão do mundo. Isso permite que as pessoas examinem a ideia como uma realidade física e assim entendam melhor o que ela significa na prática.

Nesse sentido, a arte fornece orientação espiritual e combustível à vida e à realização dos nossos próprios objetivos. Seja uma escultura de uma bailarina representando a habilidade e a graça possível ao ser humano; ou um livro de ficção sobre grandes industriais que exibe a possibilidade da realização produtiva.

Além disso, como tudo no mundo, a arte é algo específico. Portanto, ela é tanto cognoscível como definível. E, como tudo criado pelo ser humano, é julgada adequadamente como boa ou ruim pelo padrão dos requerimentos da vida humana na Terra.

Assim, o objetivismo rejeita a ideia de que arte é o que quer que qualquer autoproclamado ou alegadamente “talentoso” artista despeje ou disponha em uma galeria. Nem tinta salpicada aleatoriamente sobre uma lona, nem uma roda de bicicleta “inteligentemente” presa a um banco, nem uma salada de palavras cuidadosamente impressa em uma página são arte.

Tais coisas não são arte “ruim”; elas absolutamente não são arte. A arte não é uma regurgitação de impulsos irracionais, mas a recriação seletiva da realidade.


Razão e criação

Visto que o homem apreende a realidade somente por meio da razão, a criação de arte requer o uso intenso dessa faculdade. Ou seja, requer pensamento, conexões mentais e a transformação de conceitos e valores altamente abstratos em material da realidade perceptual.

Essa não é a província da palhaçada; é a província da genialidade – e deve ser reconhecida e protegida como tal.

O objetivismo também rejeita a ideia de que, dentro do âmbito daquilo que é arte, não há critérios objetivos para julgar certas obras como melhores que outras.

Como todo valor legítimo, uma obra de arte – seja uma pintura, escultura, romance, filme, sinfonia – é um valor precisamente na medida em que serve a algum requerimento da vida de um ser racional.

Enquanto há muito espaço para diferentes gostos dentro do âmbito da arte genuína, também existe objetivamente dentro desse âmbito melhores ou piores obras de arte – melhores ou piores pelos padrões da racionalidade e das necessidades espirituais do homem.

Por exemplo, desde que a essência da natureza do homem é de que ele possui livre-arbítrio, a melhor arte – a arte romântica – reflete esse fato. Ela retrata o homem como agente de sua própria vida, capaz de remodelar seu mundo de acordo com seus valores, à maneira da alma autocriada que ele realmente é.


Arte, felicidade e capitalismo

A boa arte – como tudo mais de que a vida e a felicidade humanas dependem – é um produto do pensamento racional e do esforço criativo. Essa é mais uma razão para abraçar e defender o capitalismo – e a inteira filosofia da razão na qual ele se baseia.

Em uma sociedade racional, capitalista, os artistas são completamente livres para pensar e criar como julgarem melhor; nada se põe no caminho deles. Afinal, o direito à liberdade de expressão é absoluto.

Desde que o princípio social que orienta tal sociedade é o comércio – e uma vez que não há financiamento “público” das artes – os artistas que produzirem obras que as pessoas racionais valorizam tendem a prosperar. Em contrapartida, quem produz obras que as pessoas racionais não valorizam tendem a encontrar outras profissões.


UM SISTEMA SOCIAL ADEQUADO

No campo da política, o objetivismo reconhece que para desempenhar as ações que promovem a sua vida, uma pessoa deve ser livre para agir assim; ela deve ser livre para agir de acordo com o julgamento de sua mente, o seu método básico de viver.

A única coisa que pode impedi-la de agir assim são outras pessoas, e a única maneira pela qual podem impedi-la é por meio da força física. Assim, a fim de viver pacificamente em sociedade – como seres civilizados, não como bárbaros – as pessoas devem se abster de usar força física umas contra as outras. Esse fato dá origem ao princípio dos direitos individuais, que é o princípio do egoísmo aplicado à política.

O princípio dos direitos individuais é o reconhecimento do fato de que cada pessoa é moralmente um fim em si mesmo e não um meio para os fins dos outros. Portanto, ela deve moralmente ser deixada livre para agir de acordo com o seu próprio julgamento tendo em vista o seu próprio bem, contanto que ela não viole esse mesmo direito das outras pessoas.

Este princípio não é uma questão de opinião pessoal, convenção social ou “revelação divina”. Refere-se a uma questão dos requerimentos factuais da vida humana em um contexto social.

Uma sociedade moral – uma sociedade civilizada – é aquela na qual a iniciação de força física contra seres humanos é proibida por lei. E o único sistema social em que tal força é proibida dessa forma – consistentemente e por princípio – é o puro capitalismo laissez-faire.


Sobre o capitalismo

Ao contrário das más informações disseminadas, o capitalismo não é meramente um sistema econômico. Este consiste no sistema social dos direitos individuais, incluindo os direitos de propriedade, protegidos por um governo estritamente limitado.

Em uma sociedade laissez-faire, se as pessoas quiserem lidar umas com as outras, eles só podem fazer isso em termos voluntários, por concordância não coagida. Se elas quiserem receber bens ou serviços das outras, elas podem oferecer valor em troca de valor para benefício mútuo. Entretanto, elas não podem buscar obter qualquer valor das outras por meio de força física.

As pessoas são totalmente livres para agir de acordo com seu próprio julgamento e assim produzir, manter, usar e dispor de sua propriedade da forma que julgarem mais apropriada. Nesse sentido, a única coisa para a qual elas não são “livres” é a violação dos direitos das outras pessoas.

Em uma sociedade capitalista, ninguém pode legalmente violar os direitos individuais, nem mesmo o governo.

Assim, o único propósito do governo em tal sistema é proteger os direitos individuais dos seus cidadãos por meio da polícia. Por exemplo, para lidar com criminosos domésticos e agressores estrangeiros; e oferecer tribunais de justiça.


Sobre o governo

Enquanto o governo detém um monopólio sobre o uso legal da força, ele é constitucionalmente proibido de usar força iniciatória em qualquer que seja a forma. Além disso, constitucionalmente, este é obrigado a usar força retaliatória quando necessário para proteger os direitos dos seus cidadãos.

Por exemplo, o governo é proibido de:

  1. tomar a propriedade de pessoas inocentes (ex: o domínio eminente);
  2. obrigar a maternidade (ex: as leis antiaborto);
  3. redistribuir riqueza à força (ex: a política do bem-estar social);
  4. ditar os termos de contratos privados (ex: o salário mínimo e as leis antitrustes);
  5. restringir a liberdade de expressão (ex: a “reforma” do financiamento de campanhas);
  6. impedir o avanço científico (ex: as pesquisas com células-tronco embrionárias);
  7. forçar os cidadãos a financiar organizações religiosas (ex: as iniciativas com base na fé);
  8. impor serviço “comunitário” ou “nacional” (ex: “voluntarismo” obrigatório).

Simultaneamente, o governo tem a obrigação de fazer cumprir leis contra homicídios, assaltos, estupros, fraudes, calúnia, entre outros crimes. Além disso, o governo também tem a obrigação de livrar-se sumariamente de agressores estrangeiros que iniciam ou ameaçam iniciar força contra os seus cidadãos e seus interesses.

O genuíno capitalismo – não o sistema híbrido dos Estados Unidos de hoje – é o único sistema social que proíbe consistentemente a todos, incluindo ao governo, de atacar pessoas ou roubar sua propriedade.

É o único sistema que respeita e protege os direitos individuais como uma questão de princípio inquestionável. Em outras palavras, o capitalismo é o único sistema que institucionaliza os requerimentos da vida humana em um contexto social. Nenhum outro sistema social na Terra faz isso. Assim, se a vida do homem é o padrão de valor moral, o capitalismo é o único sistema social moral.


EM OPOSIÇÃO AO CONSERVADORISMO

Ao advogar o capitalismo laissez-faire, o objetivismo se opõe à política do conservadorismo – tal como a noção de que somos “responsáveis pelo nosso irmão” e, portanto, devemos nos sacrificar servindo a estranhos.

Dessa forma, a coação de empresários bem-sucedidos em prol do “pequeno” parte da premissa de que o segundo não é capaz de obter sucesso a partir de seu próprio pensamento racional.

Por exemplo, a consciência de que os alunos de escolas públicas devem ser obrigados a rezar; ou o entendimento de que os cientistas devem ser proibidos de se dedicar às pesquisas com células-tronco embrionárias, porque “nós não devemos brincar de Deus”.

O objetivismo também rejeita a noção conservadora de que homossexuais devem ser proibidos de experimentar os prazeres do sexo, porque “Deus desaprova”; ou a ideia de que as forças armadas americanas devem se sacrificar para a promoção da “liberdade” ou da “democracia”.


CONTRA O PROGRESSISMO

O objetivismo se opõe à política da esquerda – tal como a noção de que as pessoas têm o “direito” de receber bens ou serviços. Afinal, isso obviamente exige que alguém seja obrigado a fornecê-los.

Além disso, são rejeitadas: a noção de que agências do governo, empresas privadas e escolas devem ser obrigadas a implantar políticas de “ação afirmativa” e de “formação para a diversidade”; e a consciência de que os alunos de escolas públicas devem ser doutrinados com o relativismo do “multiculturalismo” ou do “ambientalismo”;

Assim como, o entendimento de que as pessoas devem ser obrigadas a financiar ideias ou arte que desaprovam. Por exemplo, via estações de rádio “públicas” ou concessões “públicas”. E a noção de que os Estados Unidos não têm o direito de “interferir com” ou “impor valores Ocidentais” a regimes que são responsáveis pelo massacre de americanos.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com o objetivismo, a busca da liberdade depende da ética do egoísmo. Este, por sua vez, depende da filosofia da razão, que é fundamentada na natureza básica da realidade.

Os objetivistas são, como dizia Rand, “radicais pelo capitalismo”, absolutistas e fundamentalistas pela liberdade. É assim porque são radicais pela razão. E, portanto, a verdadeira política da liberdade é a política do autointeresse.

Em suma, os princípios-chave do objetivismo são:

  1. a realidade é um absoluto;
  2. a razão é o único meio de conhecimento do homem;
  3. o homem possui livre-arbítrio (a escolha de pensar ou não);
  4. o autointeresse é moral;
  5. os direitos individuais são absolutos;
  6. o capitalismo é moral;
  7. a boa vida depende da boa arte.

Fonte:ideiasradicais/Craig Biddle


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête