Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Abalado e triste, o sujeito questiona a vontade divina, perguntando por que Deus leva as mães e deixa seus filhos para trás. Fala na figura maternal como algo maior que a própria vida (“Mãe não tem limite”), uma eterna “luz que não apaga”.

A repetição do adjetivo “puro” sublinha o caráter único e grandioso da relação entre mães e filhos. Por isso, o eu lírico não aceita a morte de sua mãe, já que “morrer acontece com o que é breve”. Pelo contrário, ela é imortal, está eternizada na sua memória e continua presente nos seus dias.

Desse modo, a vontade de Deus é um “mistério profundo” que o sujeito não consegue decifrar. Se opondo ao funcionamento do mundo, afirma que se fosse o “Rei” não permitiria mais que as mães morressem.

Este desejo quase infantil de inverter a ordem natural das coisas vem lembrar que, mesmo depois de adultos, os filhos continuam necessitando do colo materno. O filho “velho embora, / será pequenino” sempre nos braços de sua mãe.

O poema marca, assim, uma dupla solidão e orfandade do sujeito. Por um lado, perde a progenitora; por outro, começa a questionar sua relação com Deus, incapaz de compreender e aceitar o sofrimento presente.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête