Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Como uma espécie de arte poética, esta composição expressa as intenções e os princípios do sujeito enquanto escritor. Se demarcando de movimentos e tendências literárias anteriores, declara que não escreverá sobre um “mundo caduco”. Também afirma que não está interessado no “mundo futuro”. Pelo contrário, tudo o que merece sua atenção é o momento presente e aqueles que o rodeiam.

Se opondo aos modelos antigos, aos temas comuns e às formas tradicionais, traça suas próprias diretrizes. Seu objetivo é andar “de mãos dadas” com o tempo presente, retratar sua realidade, escrever livremente sobre aquilo que vê e pensa..

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Até mais!

Equipe Tête-à-tête