Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.


Com “Canção Final”, o poeta exprime de forma primorosa as contradições que vivemos no término de um relacionamento. O primeiro verso anuncia o final de um romance e a intensidade da sua paixão pela mulher perdida. Logo depois, ele vai se contradizer (“não foi tanto assim”), relativizando a força do sentimento.

O tom dos versos seguintes é de indiferença e desdém. O eu lírico confessa que nem os próprios deuses conseguem saber com exatidão aquilo que ele sentiu. A memória é apontada como uma “régua de exagerar as distâncias”, que aumenta e exagera tudo.

Além da incerteza, o eu poético desabafa sobre o vazio que o consome: não tem sequer a tristeza, já não tem nem a rotina de “acasalar e sofrer”. Sem esperança, não tem nem uma “miragem”, uma ilusão que o faça continuar.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête