Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.

Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.

Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.

Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele

O poema é uma reflexão acerca da condição humana e da sua difícil conexão com a força divina. Na primeira estrofe, o sujeito aponta que a relação de cada um com Deus é particular, só sua. Quando dizemos “meu Deus”, não estamos perante uma divindade única mas múltiplos “deuses pessoais”. Cada um imagina seu próprio criador, a fé se processa de formas diferentes nos indivíduos.

Na estrofe seguinte, o sujeito sublinha que o uso do pronome possessivo “meu” gera proximidade. Focando na “cumplicidade” entre o humano e o divino, evoca a sensação de companhia e amparo.

A antítese na terceira estrofe (“Mais fraco, sou mais forte”) reflete a relação paradoxal deste sujeito com Deus. Por um lado, assumindo que necessita da proteção divina, reconhece a sua fragilidade. Por outro, se fortalece através da fé, superando a “desirmandade”, a solidão e a indiferença.

Este laivo de luz se dilui nos versos seguintes, quando o eu lírico define sua fé como uma forna “gritar” sua “orfandade”, desabafar seu desespero. Ele se sente abandonado por Deus, entregue à própria sorte.

Acreditando na figura do Divino Criador, se sente preso por ele, submetido aos seus decretos (“O rei que me ofereço / rouba-me a liberdade”) e sem poder para alterar a própria vida.

A composição exprime, deste modo, a “ansiedade” do sujeito e seu conflito interior entre a fé e a descrença. Através da poesia manifesta, simultaneamente, a vontade de acreditar em Deus e o medo de que Ele não exista.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête