Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate


“Carlos” é o destinatário da mensagem deste poema. Mais uma vez, parece existir uma aproximação entre o autor e o sujeito que reflete e fala consigo mesmo, procurando se aconselhar e apaziguar.

De coração partido, lembra que o amor, como a própria vida, é inconstante, passageiro, repleto de incertezas (“hoje beija, amanhã não beija”). Afirma, então, que não tem como fugir disso, nem através do suicídio. O que resta é esperar “as bodas”, o amor correspondido, estável. Para seguir em frente, precisa acreditar no final feliz, ainda que não chegue nunca.

Caminha firme, “vertical”, persiste mesmo derrotado. Melancólico, durante a noite, procura convencer a si mesmo que deve avançar com a sua vida, apesar da vontade de morrer, de se matar. Assume que o amor “é sempre triste” mas sabe que deve manter segredo, não pode partilhar o sofrimento com ninguém.

Apesar de toda a desilusão, o poema transmite uma réstia de esperança, que o sujeito lírico procura cultivar para continuar vivendo. Embora seja a sua maior angústia e pareça a sua maior perdição, o amor surge também como o último reduto, no qual precisamos ter fé.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête