Não quero saber de IPM, quero saber de IP.
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
– Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão , o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação, mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipês, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem não me dêem dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê.
Tempo de glória.


Publicado em Amar se aprende amando (1985), o último livro de poemas que o autor lançou em vida, o poema pode ser interpretado como um manual de sobrevivência para tempos difíceis.

Logo no verso inicial, o sujeito poético manifesta a sua posição, deixando claro que não se interessa por “IPM”, uma sigla que se traduziria por “Inquérito Policial Militar”.

Percebemos que estamos perante uma composição de temática social e política, que usa seus versos para denunciar o cotidiano de um país em sofrimento e ditadura.

Ele vai mais longe afirmando que prefere “maravilha” do que “militar”. O que vale o seu tempo e a sua atenção é a natureza, metaforizada pelos ipês, um tipo de árvore que existe em todo o Brasil. Um símbolo de resiliência, ela perde todas as suas folhas e depois se enche de flores coloridas.

Este eu-lírico associa o florescimento dos ipês à alegria, à força e à esperança. Na sua visão, eles teriam dado flores antes do tempo para alegrar os cidadãos do Rio de Janeiro. O encanto dos ipês contrasta com a realidade distópica do local: “desamor, tumulto, inflação, mortes”.

O mundo natural não parece afetado por nada disso. Assim, o sujeito apenas quer se concentrar naquilo que é belo, declarando que está “dissolvido na natureza”. Por tudo isso, remata ao declarar que fugindo do contato humano e das durezas da vida.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987),


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête