Vimos, anteriormente, duas diferentes perspectivas sobre o medo. Aprendemos, primeiramente, a diferenciar o medo da angústia, e vimos, também, que um dos objetivos, senão o principal objetivo do medo, é nos conduzir à ação, ou seja, impelir-nos a buscar e enfrentar o desconhecido. De outro lado, vimos em Pascal que a angústia, muitas vezes refletida em nossos medos, decorre do afastamento entre o homem e o divino e a sua consequente busca pelo divertissement. Ou seja, distante de Deus, o homem se torna indiferente à sua alma — a qual, por natureza, é imortal — e dá extrema importância aos prazeres, recompensas e satisfações efêmeras da vida presente, buscando nisto o sentido, a felicidade, a constância e o preenchimento que só poderá achar no seu reencontro com o divino. Para reencontrar-se com o divino, o homem deverá buscar, assim, com disposição honesta e escrupuloso rigor, a antecipação da morte, isto é, deverá pensar, ininterruptamente, a finitude da sua existência.   

Deixando um pouco de lado nossa abordagem dialética sobre o assunto, nos concentraremos, agora, numa perspectiva mais psicológica e prática sobre os medos irracionais e como superá-los. Para tanto, nos inspiraremos nas lições trazidas pelo psiquiatra e sacerdote Narciso Irala em sua obra Controle Cerebral e Emocional, que compõe os Prolegômenos da nossa Lista de Leitura de Filosofia para Iniciantes e Interessados desde a sua atualização mais recente.

Narciso Irala utiliza a palavra “temor” para se referir ao medo, e começa sua exposição diferenciando os temores razoáveis dos temores irrazoáveis ou exagerados. Aqueles, diz o autor, nos são dados pelo próprio Deus para evitar os perigos reais, e são, por natureza, bons. O medo se dá quando os obstáculos se nos apresentam insuperáveis e, descartando-nos da luta, tratamos de fugir daquele perigo ou de evitá-lo.

Para o autor, no entanto, o homem, em sua vivência, pode ter impressões fortes ou multiplicadas de terror, às vezes através da exposição a conversas, ao cinema, à literatura, aos romances, enfim, estímulos da imaginação, que vão deixando na subconsciência, na forma de resíduos ou sedimentação, a tendência à insegurança ou sentimento de temor.   

O temor é a emoção mais difícil de controlar, porque, com frequência, não sabemos o que tememos ou por que tememos, como na angústia, nas fobias ou temores infundados. Sua motivação costuma ser inconsciente, ou se transferiu da causa real para algum dos concomitantes; ou, reprimindo inconscientemente a reação natural que feriria nosso orgulho, lhe demos saída nesses medos simbólicos que reconhecemos infundados, mas que não sabemos dominar.          

A superação do medo, nesses casos, depende da exploração mais profunda do subconsciente, das origens da anormalidade e das circunstâncias que a acompanharam.

Tomaremos, num instante, a palavra do autor, e traremos o discurso para o nível da experiência, imergindo, mais uma vez, em nossa própria vivência. Dias atrás, compartilhei em meu espaço pessoal que a origem do meu medo de tubarões coincidiu com um momento em família específico, onde me vi, pela primeira vez, diante de sentimentos completamente desconhecidos: pertencimento, acolhimento, perdão e saudade.

Tendo crescido em meio a um drama familiar um tanto problemático, acompanhada daquela constante sensação de “estranhamento” própria da angústia, um belo dia decidi me afastar para mais de 1500km da minha família. A distância física, surpreendentemente, me permitiu aproximar-me como nunca dos meus familiares, no sentido de dedicar a mim mesma, a eles e a toda nossa história um olhar compreensivo e compassivo que jamais havia dedicado. E então, quando, anos depois, nos reencontramos, todos juntos, tudo parecia diferente, tanto “por dentro” quanto “por fora”.

A despedida, dessa vez, trouxe-me, tanto em forma como em intensidade, a dor da falta que eu nunca havia experimentado. Lidar com o desconhecido, não saber “o que é” e “como superar”, é justamente aquilo que nos traz insegurança. A angústia é um não saber como, não saber onde e nem por quê, que nos deixa inevitavelmente vulneráveis. E vulnerável foi exatamente como fiquei a partir de então.

Acontece que a praia, o mar, foram justamente o pano de fundo daquele nosso momento em família. Após a despedida, visitar o mar e os lugares que frequentamos me trazia esse sentimento desconhecido, esse “não sei o quê”, que estava em todo lugar e eu não podia definir e compreender. Nesse intervalo, um ataque de tubarão ocorreu num estado vizinho, ferindo gravemente uma criancinha. A mídia explorou bastante esse episódio por um tempo e, dado o meu natural interesse pela vida marinha, acompanhei de perto as notícias.

Após imergir profundamente em minha própria experiência, tudo fez um sentido tão claro, que, hoje, me pergunto: levando em conta as minhas circunstâncias, tinha como não ter desenvolvido este medo irracional de tubarões? Talvez, se tivesse sido eu a viajar para reencontrá-los, o meu medo teria sido de aviões; ou, se tivéssemos nos reunido no campo, eu teria medo de cobras, sapos, aranhas ou qualquer animal relacionado àquele ambiente.

Dramas familiares constantemente carregam traumas e questões da infância mal resolvidas, que implicam na vida adulta muito mais do que imaginamos. Os avanços da psicologia, mais especificamente da psicanálise, entram aqui como ferramentas muito úteis à superação dos nossos problemas. Infelizmente, no entanto, a invasão da ideologia na formação acadêmica dos psicólogos proporciona a muitas pessoas, como já proporcionou a mim, experiências ruins e prejudiciais com profissionais dessa área e a tão estimada terapia.

Buscando alternativas a essa realidade, passei a buscar na literatura um auxílio. E assim cheguei a essa maravilhosa obra que compartilhamos alegremente com nossos leitores. Retornemos, então, às lições do autor.

Após trazermos o obscuro à luz, ou seja, ao tornarmos consciente nosso medo inconsciente, Narciso Irala nos recomenda seguir os seguintes passos: agir sobre o temor; concretizá-lo; refletir sobre ele; enfrentá-lo; evitar os excitantes; opor-lhe ideias contrárias; opor-lhe sentimentos contrários; e, por fim, associar as vivências de segurança às que antes nos produziam temor.

É claro que não vamos destrinchar cada um desses passos e poupar o nosso leitor da experiência única e indispensável com a leitura completa da obra do autor, a qual se dedica, ainda, a comentar sobre tipos específicos de medos, como a obsessão do escrúpulo (quando alguém, fora de casa, se angustia com a dúvida se apagou ou não a luz, por exemplo, ou costuma recair com frequência sobre assuntos morais e religiosos), o sentimento de inferioridade (timidez) e a eritrofobia ou rubor motivado.

Para além dos temores, a obra nos oferece reflexões e técnicas sobre a felicidade, a educação da vontade, a reeducação da consciência, a concentração, a tristeza e até mesmo a problemas como cansaço e insônia, cujos conselhos são de inestimável utilidade ao estudante iniciante ou nem tão iniciante assim. Se lida em conjunto com as obras e a ordem de leitura propostas nos Prolegômenos da nossa lista de Filosofia, melhor ainda!

Esperamos que o leitor nos encontre na próxima e última parte desta série de reflexões, onde falaremos sobre os medos relacionados à infância e a alienação parental.

Fonte:contraosacademicos/ValériaCampeloCutrim – Advogada, tradutora e “ademira” do CoA.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête