Mário desviou os olhos da estrada e se deparou com o adesivo magnético fixado no painel do carro, onde leu “Não corra, papai”. Entre a foto do filho e a imagem de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas, a frase era praticamente uma ordem para que tirasse o pé do acelerador do fusca ano 70.

O ponteiro do velocímetro chegava na casa dos 90 km/h quando pisou na embreagem, engatou a terceira marcha e fez o carro reduzir a velocidade, num tranco que jogou seu corpo para frente enquanto o escapamento expelia uma nuvem de fumaça escura.

Vinha relembrando os últimos acontecimentos e observando os campos à sua volta, suas várias tonalidades de verde e as ondulações que podia até mesmo comparar ao mar, numa extensão que só encontrava limites no horizonte, na junção com o céu.

Feliz por estar voltando para casa, apesar do motivo, via a paisagem ficar cada vez mais familiar à medida que vencia um novo quilômetro.

Passou a mão pela testa e enxugou o suor que brotava em profusão e escorria pelo rosto, formando gotas que pingavam do queixo, encharcando o peito e a camisa. Como se o sol estivesse sentado no banco do caroneiro, o forte calor só era aliviado pela corrente de ar vinda das ventarolas abertas e que canalizavam um vento morno na sua direção. Com o cotovelo esquerdo apoiado na janela, distraía-se cortando o vento com a mão, para cima e para baixo, imitando os movimentos dos flaps de um avião ao arremeter e aterrissar.

Conhecedor de todos os segredos do carro, mantinha-o dentro dos limites da via em que trafegava fazendo pequenos malabarismos para controlar a folga na direção, o que exigia movimentos calculados antecipadamente. Já estava bem acostumado com o bom e velho 1300 cilindradas, que conforme seus amigos era bem mais velho do que bom.

Para sua alegria, depois de fazer mais uma das tantas curvas existentes no trajeto, avistou o que pareceu naquele momento ser um verdadeiro oásis no meio de um deserto escaldante. Um posto de gasolina era exatamente o que precisava para matar a sede, espichar o corpo e esvaziar a bexiga.

Com barbas brancas e ralas, um velho magro que vestia um macacão “jeans” todo empoeirado foi a única alma viva que avistou ao se aproximar do local. Sentado numa cadeira escorada num dos pilares que davam sustentação à cobertura do posto, o homem acompanhou sua aproximação olhando de soslaio.

Guardião da única bomba de abastecimento, que ainda funcionava na base da manivela, tinha na boca um toco de charuto apagado, que mastigava e jogava habilmente de um canto ao outro.

— Bom dia! — Mário cumprimentou ao estacionar bem ao seu lado.

Ao sentir que o visitante não tinha a intenção de abastecer o carro, o velho continuou olhando através das janelas do fusca como se não houvesse ninguém dentro, procurando acompanhar os outros veículos que passavam pela estrada.

— Bom dia! Onde posso matar a sede? — Mário insistiu, desta vez levantando a voz para ser notado.

Vencido, o frentista tirou o boné da cabeça e o levou na direção da porta bem ao seu lado, sem dizer uma única palavra, enquanto mantinha um enigmático sorriso no rosto sulcado pelo tempo.

Ao entrar no recinto, que descobriu ser um bar, Mário se deparou com um homem gordo e calvo debruçado sobre o balcão, lendo algo que pareceu ser uma revista. Vestindo uma camiseta cavada que deixava grande parte da barriga à mostra, mal dispensou atenção à sua chegada e sem ao menos levantar a cabeça, ergueu a mão com os dedos polegar e indicador próximos um do outro sinalizando para que esperasse um pouquinho.

A pouca luz natural que penetrava no ambiente através de duas pequenas basculantes, localizadas na parte superior da parede dos fundos, era reforçada por três lâmpadas incandescentes penduradas sobre o balcão.

Meia dúzia de mesas espalhadas pela sala estavam cobertas por toalhas que, a julgar pela cor, supunha o freguês terem sido brancas algum dia. Tudo cheirava a mofo.

— Gostaria de um pouco d’água, tem?

Mário disparou a pergunta ignorando o sinal feito pelo atendente.

O homem fechou a revista, levantou a cabeça muito calmamente e com cara de poucos amigos olhou em seus olhos por alguns segundos. Franzindo a testa, perguntou com uma voz grave, muito adequada ao seu físico:

— E pra comer? Não vai pedir alguma coisa? Água em qualquer torneira tu encontra, não é mesmo?

Pego de surpresa com a franqueza do sujeito, Mário gaguejou sem saber exatamente o que responder para não desagradar ainda mais o homem que já parecia ter ficado bravo. A verdade é que as condições de higiene do bar não recomendavam nada além de apenas um simples copo d’água, e olhe lá!

— É que eu queria apenas saber…

Com o punho cerrado, o homem desferiu um soco no balcão, apontando logo em seguida para Mário e soltando uma longa e potente gargalhada enquanto segurava a barriga que tremia feito gelatina.

Sem entender nada, Mário arregalou os olhos e ficou imóvel ao assistir àquela cena bizarra.

— Precisava ver a tua cara! — E entre gargalhadas continuou — É claro que temos água, eu apenas estava terminando de ler uma reportagem na “Playboy”. Sente-se aí que já servirei.

— Sei, uma “reportagem”. — Mais aliviado, mas ainda desconfiado, Mário sentou junto a uma das mesas próximas ao balcão. “Menos mal que parece ter senso de humor”, pensou.

O homem trouxe uma jarra de água gelada, puxou uma cadeira e sentou bem na sua frente, cruzando os braços e se esforçando para conter o riso que ainda brotava, incontrolável.

Mário encheu o copo até a borda e bebeu tudo de um gole só para aliviar a secura da garganta e repor os litros perdidos pelo suor.

— Desculpe se o assustei, é que passo muito tempo sem receber pessoas por aqui e acredito que perdi, como se diz mesmo? O verniz? Isto mesmo, o verniz. Depois de tanto tempo enfurnado neste lugar acho que perdi mais do que só os cabelos.

Ao ver seu comportamento, o modo como se vestia, o desleixo com o corpo e ouvir aquelas poucas palavras, foi fácil para Mário concluir que ele tinha perdido pelo caminho algo muito mais importante do que cabelos e verniz. Não quis alentá-lo e apenas ficou pensando o que teria feito para acabar num local deprimente como aquele? Que chances teve na vida, se é que as teve, e como as aproveitou? Que atitudes poderia ter tomado para mudar sua história? — Mário se perguntou enquanto aquela triste figura continuava ali, imóvel diante dos seus olhos.

— Sabe de uma coisa? Agora que tirei o pó da garganta vou querer uma cervejinha bem gelada. Tem aí? — Saciado, fez o pedido muito mais por piedade do que desejo.

— Agora senti firmeza! — Disse o homem esfregando as mãos ao ouvir a boa notícia — Não só temos, como é das boas!

Levantou num pulo, subiu as calças e deu uma corridinha desajeitada até o freezer do lado de dentro do balcão. Vai que o cliente mudasse de ideia!

De volta à estrada, Mário pôs o velho fusca na direção de casa e acelerou, desta vez tomando o cuidado para não olhar novamente para o painel. Queria apenas chegar o quanto antes.

Trecho extraído do livro “Campeão, um herói sem máscara”.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête