Uma lufada de vento invadiu a casa, trazendo o cheiro gostoso da terra molhada depois de uma rápida pancada de chuva. As cortinas das janelas esvoaçaram.

Era final da manhã de uma sexta-feira de dezembro, e o sol aparecia entre nuvens carregadas, mantendo o tempo abafado. Com os pés descalços e enlameados de correr na chuva, o menino ouviu um motor de carro se aproximar e largou o brinquedo que tinha nas mãos para colocar toda sua atenção naquele som que foi aumentando gradativamente até silenciar de repente.

— Mãe! O Campeão chegou! Manhê! O pai chegou! Vem depressa!

Com o avental atado na cintura, Luíza largou seus afazeres na cozinha e pegou o filho pela mão para correrem até os fundos da casa, onde o fusca havia recém estacionado sob um caramanchão. O cano da descarga ainda fumegava o óleo queimado.

— O que houve? Não deveria retornar somente no final da semana?

Resmungando algo que ela não compreendeu direito, Mário ainda tentava se desvencilhar do cinto de segurança sem conseguir disfarçar a decepção que estava estampada no rosto. Desceu do veículo, beijou a esposa e em seguida pegou nas mãos do filho e começou a rodopiar imitando um carrossel. Pedro ria sem parar.

“Campeão” era como o menino acostumou chamar o pai pelas brincadeiras que fazia toda vez que retornava do trabalho, ao colocá-lo sobre os ombros e sair correndo, numa simulação de corrida de cavalos onde sempre venciam.

Depois da rápida atenção dispensada ao pequeno, a alegria dissimulada abandonou seu rosto e entrou em casa meneando a cabeça, atirou-se no sofá e se livrou dos sapatos que foram jogados no chão de qualquer jeito.

— Pai? Não pode deixar os sapatos virados que dá azar! Não é mesmo, mãe? — Repetindo como um papagaio tudo o que ouvia dentro de casa, correu para desvirá-los.

— Pensei que estivesse me saindo bem nas provas, mas o fiscal do curso disse que eu não obtive a nota mínima pra participar da entrevista final. Não entendo o que aconteceu — desabafou.

Mário tinha viajado à cidade vizinha, próxima à capital, para disputar uma das vagas abertas ao preenchimento de um cargo de supervisor na agência onde trabalhava, o que, se bem-sucedido, representaria um belo avanço no salário e na carreira.

— Vai ver estas provas não passam de um jogo de cartas marcadas, onde tudo já tá combinado. Cansamos de ouvir que este tipo de situação acontece em muitas empresas — Luíza lançou mão da hipótese para tentar consolar o marido e animá-lo um pouco.

— Quem duvida? Afinal, tenho o segundo grau completo e trabalho com toda a disposição, sem nunca deixar de fazer o que determinam. O que mais preciso fazer pra provar que mereço uma promoção?

— Se acalme, porque isto não é o fim do mundo e o que importa é que continuará empregado na companhia.

Fazendo o almoço, ela se deslocava entre a pia e o fogão, demonstrando uma calma que procurava transmitir ao marido que permanecia deitado com as mãos entrelaçadas sob a cabeça e com os olhos fixos no teto.

— De uma maneira geral, não achei as provas muito difíceis. Acho até mesmo que acertei a maioria das questões de conhecimentos gerais, gramática e matemática.

— E a prova de inglês, como foi?

— Pra ser bem sincero, não achei muito fácil. Ora, mas quem seria reprovado logo numa prova de inglês?

— A comida tá servida, venham antes que esfrie! — Luiza encontrou um bom pretexto para mudarem de assunto ao colocar a panela de ferro sobre a mesa depois de trocar a toalha e distribuir pratos e talheres.

— Oba! Macarrão! — Pedro foi o primeiro a sentar depois de ter aproveitado aquela manhã sem aulas devido ao conselho de classe na escola.

Como era o costume, fizeram uma rápida oração de agradecimento antes de iniciar a refeição.

Trecho extraído do livro “Campeão, um herói sem máscara”.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête