Mário trabalhava numa sala compartilhada com sete colegas, todos mais ou menos da mesma idade, onde assuntos banais como resultados da última rodada do campeonato de futebol, fofocas de revistas e manchetes da seção policial dos jornais ocupavam a maior parte do tempo da equipe durante o expediente.

Os dias transcorriam dentro de uma rotina onde até mesmo a ordem das falas eram previsíveis. Carlos, um tipo alto, magro e de óculos com lentes grossas, iniciava as provocações futebolísticas tão logo entrava na seção pela manhã. Almeida, o mal-humorado da turma e a quem eram dirigidas as piadinhas, não deixava barato e o bate-boca logo tinha início.

Os demais continuavam suas atividades enquanto incitavam a discussão, fazendo piadas e tomando partido, ora de um, ora de outro, na conversa acalorada. Tão logo abrandada a disputa esportiva, outras iniciavam em áreas tão polêmicas quanto.

Quem se dispusesse ao trabalho de observar com um pouco mais de atenção o comportamento daquelas pessoas, concluiria facilmente que havia algo mais em comum entre eles do que somente a idade.

Numa manhã chuvosa, com os vidros das janelas embaçados e pingos d’água escorrendo pelo lado de fora, Mário foi levado, talvez pela atmosfera, a refletir um pouco enquanto batia suavemente a ponta da caneta na mesa.

Da sua escrivaninha, localizada atrás das demais, observava os colegas numa acirrada discussão qualquer, alguns no limite da civilidade. Era o ambiente em que estava inserido desde sua admissão na empresa, sem nunca questionar as possíveis consequências para sua carreira. Foi inevitável lembrar da ocasião em que revelou ao grupo, entusiasmado, sua intenção de matricular-se para o curso de nível superior, tendo recebido uma série de comentários desanimadores:

“Tu vai gastar à toa” ou “vai perder tempo”, ou ainda “onde quer chegar com isso”? – Foram frases que ouviu de alguns, enquanto outros ficaram em absoluto silêncio. Estas manifestações, explícitas ou tácitas, haviam feito com que se desmotivasse e desistisse, pelo menos temporariamente, daquela ideia.

Nenhum dos colegas demonstrava querer novas conquistas no trabalho ou na vida pessoal, o que fazia do grupo uma reunião de pessoas apáticas, sem ambições além da monótona rotina em que viviam. Faltava-lhes aquele brilho nos olhos que denuncia a paixão pelo que se faz e a presença de sonhos na vida.

Recordou também de quando apresentou ao superior imediato um trabalho contendo propostas de melhorias para um dos processos de estoque controlado pelo setor onde estava. Era um plano para alteração de alguns poucos procedimentos no recebimento e despacho de materiais do almoxarifado e que, conforme seus cálculos, reduziriam custos para a empresa.

Passando rapidamente os olhos de cima a baixo do trabalho, o supervisor sugeriu que fizesse algumas alterações e que aguardasse ser chamado posteriormente para fazer uma apresentação ao gerente geral, coisa que nunca aconteceu.

A falta de consideração demonstrada pelo chefe ao seu plano de melhorias, ao qual dedicou tempo e energia, foi frustrante, desmotivando-o para novas iniciativas do tipo.

Olhando para as gotas d’água que escorriam deixando pequenos rastros nos vidros, Mário girou a caneta por entre os dedos e concluiu que as pessoas com quem convivia diariamente também deixavam atrás de si rastros que o influenciavam direta ou indiretamente. Eram exemplos que interferiam na sua vida profissional.

Estava finalmente constatando que sua motivação naquele ambiente diminuía a cada dia, ao não ver ou receber qualquer estímulo positivo.

— Será que as pessoas com quem convivemos diariamente têm o poder de influenciar o rumo das nossas vidas? — Perguntou a Luíza mais tarde, durante o jantar.

— Acredito que sim. Ouvi outro dia no rádio um homem falar que muitas vezes agimos como as ovelhas de um rebanho que se deixam levar pro matadouro por pastores que pensavam conhecer e confiar. Que ao olhar apenas pro chão onde pisamos, ao invés das estradas que temos pela frente, seguimos sem perceber pra onde pretendem nos levar os falsos amigos ou conselheiros — concluiu.

— É que hoje estive analisando com atenção meu ambiente de trabalho e só vi desânimo e falta de profissionalismo. E agora, depois da história que contou, acho que também faço parte de um rebanho que, de certa forma, tá indo rumo ao matadouro.

Luíza olhava com admiração para o marido enquanto ele falava. Ainda suspirava por aquele que tinha sido seu primeiro e único amor e com quem aprendeu a dividir os segredos da alma e do corpo.

Sentado à mesa, o filho do casal acompanhava atentamente toda a conversa enquanto tomava seu prato de sopa.

— O Pedrinho vai cursar uma boa faculdade pra um dia ser um executivo de uma grande empresa, ou quem sabe tornar-se um médico, não é? — A mãe provocou seu pequeno.

Molhando a fatia de pão na sopa, o menino colocou-o na boca e concordou com a cabeça.

Terminado o jantar e aproveitando que a chuva já tinha parado, os três foram sentar no banco que ficava próximo ao caramanchão que abrigava o fusca.

Sem lua ou nuvens, o céu convidava à contemplação das estrelas.

— Olha, filho! Aquelas são as Três Marias. — O pai apontou para os três pontinhos no céu que ficavam juntinhos, lado a lado.

— E aquelas outras formam o Cruzeiro do Sul, tá vendo?

— Parece uma cruz, né pai?

Ficaram por algum tempo em absoluto silêncio, admirando o firmamento enquanto uma leve brisa balançava as folhas das árvores.

Trecho extraído do livro “Campeão, um herói sem máscara”.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête