Homem pode falar de aborto ou pautas feministas? Somente quem pertence ao movimento LGBT pode falar da ideologia de gênero? Brancos podem falar de negros e negros de brancos? Os defensores do que é lugar de fala propõe que não.

“O lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”. O que é lugar de fala?, Djamila Ribeiro

Além de explicar o conceito, será explicado também suas implicações contraditórias e a deslegitimização do conhecimento do locutor.

O que você vai encontrar neste artigo?

  1. Qual é o conceito do lugar de fala?
  2. O lugar de fala é algo fixo?
  3. Para que serve o lugar de fala?
  4. Controvérsias acerca da ideia de lugar de fala
  5. Existe um discurso teórico bonito e um discurso por trás…

Qual é o conceito do lugar de fala?

A ideia de lugar de fala se popularizou no Brasil com o livro da escritora Djamila Ribeiro. Segundo a definição da autora, o conceito remete ao local de fala do enunciador, qual a sua realidade social, financeira e pessoal ao proferir um discurso sobre determinado tema.

O conceito de lugar de fala é uma tentativa de entender qual a realidade social do locutor. Por exemplo: um homem rico, que nunca experimentou pobreza ou dificuldades financeiras na vida, quando fala sobre miséria, de qual lugar pronuncia seu discurso?

A ideia do conceito de lugar de fala propõe que cada pessoa enxerga o mundo de um jeito. As diferentes interpretações são baseadas nas experiências vividas por cada um.

“Existe uma linha de pensamento, o perspectivismo ou teoria do ponto de vista, que afirma que tais diferenças de experiência moldam as formas como as pessoas veem e pensam o mundo. Nesse sentido, o lugar de fala se refere justamente ao fato de que pessoas submetidas a diferentes tipos de opressão terão também prioridades e interpretações diferentes sobre a realidade”. Bruna Cristina Jaquetto Pereira, especialista em gênero e raça e doutora em Sociologia pela UnB (Universidade de Brasília).

Por isso existem opiniões e perspectivas distintas. Tudo isso iria além da opinião pessoal, segundo os defensores do conceito.

Segundo os movimentos sociais, alguns grupos sofrem opressões enquanto outros são socialmente privilegiados. Tudo isso determina a forma como eles veem o mundo, que seria diferente dos demais.


O lugar de fala é algo fixo?

O local de fala pode ser algo que muda. Por exemplo, uma pessoa pobre que ficou rica, quando fala sobre pobreza não estará falando do mesmo lugar de fala de uma pessoa que ainda passa necessidades. Assim propõe defensores da ideia do que é lugar de fala.

Mas para Ana Campagnolo, professora e deputada federal: “Lugar de fala é só uma justificativa para invalidar a opinião alheia”.


Para que serve o lugar de fala?

Campagnolo vai além:

“A teórica feminista que concebeu esse conceito e o propagou no livro dela ela até tenta dar uma maquiada dizendo que você não tá proibindo de falar, mas você tem que falar do seu lugar. Mas todos sabem que existe o discurso teórico bonito e um discurso por trás. Se eu estou falando de racismo eu tenho que dizer: ‘eu Ana tenho uma opinião sobre o racismo que é essa, mas é claro que minha opinião está pautada na minha posição, no meu lugar de fala, e eu sei e reconheço que sou branca, que sou privilegiada, por isso. Então você tem que justificar o lugar de onde você está falando. No momento em que você se justifica pelo lugar em que você está falando, mesmo que você possa opinar, você está deslegitimando sua própria opinião”.

Para Djamila Ribeiro, o conceito do lugar de fala favorece a participação de grupos que têm menos voz ativa nas decisões e rumos da sociedade.

Segundo a escritora, a hierarquia estruturada da sociedade faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes de grupos minoritários sejam tratadas de modo inferior. Assim, a própria estrutura social mantém certos grupos em um lugar de silêncio.

Para os defensores do conceito, o lugar de fala tem como objetivo oferecer visibilidade a grupos minoritários ou pessoas cujas ideias foram desprezadas durante muito tempo.

Para os detratores da ideia, o termo serve para silenciar vozes dissidentes e restringir o diálogo e a troca de impressões.


Controvérsias acerca da ideia de lugar de fala

Para Aluísio Dantas, professor e coautor dos programas de formação literária Our home is cool:

“Esse negócio de lugar de fala realmente não faz o menor sentido na minha visão. A premissa que está por trás disso é falsa. Você só pode falar ou opinar, sobre o que quer que seja, se você viveu aquela experiência. Se nós somos humanos, é porque nós temos uma capacidade que se chama abstração. Eu posso transcender os influxos imediatos dos sentidos. Nós, seres humanos, podemos fazer reflexões sobre questões que estão para além daquela nossa experiência imediata”.

Imagine um homem que é ginecologista. Ele teria lugar de fala para falar do órgão reprodutor feminino? E o contrário: uma mulher urologista. Ela teria lugar de fala?


Existe um discurso teórico bonito e um discurso por trás…

Existe o conceito teórico de lugar de fala, ideia proposta por uma escritora e pesquisadora feminista. Mas existe também o outro lado da ideia, um lado oculto, que se revela nos debates.

A ideia de lugar de fala sistematicamente é usada por determinados grupos para silenciar aqueles que defendem opiniões distintas.

Da mesma forma, existe o movimento feminista que tem duas faces. Uma é aparente e bonita, é a face da igualdade, da não-violência, da empatia, do respeito e da sororidade. Esse é o lado que está na luz, que querem que você veja.

Mas o feminismo tem duas faces. E a outra face é oculta.

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Fonte:brasilparalelo


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Equipe Tête-à-Tête