O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.


Neste poema, é evidente o contraste entre o tempo exterior, real, e o tempo interior do sujeito, a sua percepção. Embora envelheça e sinta as marcas da idade superficialmente, o eu lírico não sente a passagem do tempo na sua memória ou nos seus sentimentos, que permanecem iguais. Esta diferença de ritmos se deve ao amor que o acompanha. A rotina parece unir mais e mais os amantes, que se transformam em um só verso, um só ser.

Anuncia, movido pela paixão, que a vida não deve ser poupada nem desperdiçada: o nosso tempo deve ser dedicado ao amor, propósito maior do ser humano. Juntos, os amantes não precisam se preocupar com prazos, datas ou “calendários”. Vivem em um mundo paralelo, afastado dos outros e entregues um ao outro, porque sabem que “além do amor / não há nada”.

Subvertendo regras universais, misturam passado, presente e futuro, como se pudessem renascer a cada segundo por estarem unidos. Deste modo, a composição ilustra o poder mágico e transformador do sentimento amoroso. Algo que faz os amantes se sentirem e quererem ser imortais: “só quem ama/ escutou o apelo da eternidade”.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

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Até mais!

Equipe Tête-à-Tête