Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.


Versos apaixonados, de entrega, muitas vezes com um tom mais lânguido – a brasileira Hilda Hilst compôs uma série de poemas de amor, das mais variadas facetas, todos de alta qualidade poética.

Ama-me é um exemplar dessa lírica poderosa. Aqui, uma parte do sujeito poético deseja se entregar à paixão e à intensidade do desejo – por outro lado, quer se proteger e guardar o corpo e a alma do sentimento tão voraz.

Por fim, nos últimos versos, parece que o lado que deseja se aventurar vence os temores.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête